Súmula Internacional

Súmula Internacional 136: A “sofisticada” propaganda do imperialismo e da guerra

Quem acessa redes sociais (e quem não acessa, hoje em dia?) sabe que a predominância da propaganda de extrema-direita é visível e não é por acaso. É programada. E nos casos das redes ela é, em geral, mais explícita. Digamos, mais grosseira.

Porém, existe uma propaganda que vem de longe, é mais antiga, mas nem por isso menos eficaz, pois consegue cobrir sua apologia à injustiça e à opressão com um verniz sofisticado.

Essa forma de abordagem mais plástica tem como alvo principal as camadas médias letradas, que repudiam os conteúdos abertamente imperialistas e neofascistas.

Sob a camuflagem de uma linguagem comedida e supostamente “imparcial”, este tipo de propaganda convence muita gente boa a defender o indefensável ou, na pior das hipóteses, amortece as consciências sobre o verdadeiro significado dos acontecimentos internacionais. Vejamos o caso da agência britânica Reuters.

Sem problemas de dinheiro e, em consequência, desfrutando de imensos recursos logísticos e humanos, a Reuters contrata excelentes profissionais espalhados por sucursais em todos os continentes e nos principais países do mundo. Seu conteúdo é reproduzido pelos mais importantes veículos da mídia hegemônica. Infelizmente, tudo isso direcionado para a defesa dos interesses imperialistas.

Levantemos, por um minuto, o véu que esconde esta falsa castidade e analisemos dois exemplos recentes de matérias, aparentemente inocentes, e até meritórias, que a Reuters produziu.

A Reuters e o Irã

Povo iraniano nas ruas, contra a agressão imperialista e sionista

Em seu boletim informativo do dia 18/4, a agência fez a seguinte chamada sobre o Irã: “O Irã persevera: as pessoas se esforçam para manter uma aparência de normalidade após os ataques aéreos e os cortes na internet”. Sem dúvida, uma matéria de muito interesse, essa.

Como o heroico povo iraniano está encontrando formas de resistir em seu dia a dia?

No entanto, somos informados, logo de cara, que o principal medo do povo iraniano não é com os bombardeios dos EUA e Israel.

A preocupação do povo iraniano, segundo a Reuters, é com “uma nova repressão do governo”. Sim, é isso mesmo. Diz a Reuters: “Os iranianos – que se esforçam para manter uma aparência de vida normal após semanas de bombardeios dos EUA e israelenses e uma repressão mortal aos manifestantes em janeiro – permanecem intimidados pelo futuro, à medida que os danos causados por ataques aéreos e cortes na Internet cobram um preço (…) a economia do Irã está em frangalhos e as pessoas estão com medo de uma nova repressão do governo e com raiva dos ataques aéreos destrutivos”.

Em outro trecho, a agência alega que ouviu, por telefone, de um cidadão iraniano, a seguinte frase: “Tenho muito medo de que, se o regime chegar a um acordo com os Estados Unidos, isso aumentará a pressão sobre as pessoas comuns”.

Funeral das meninas mortas pelo ataque dos EUA

O Irã sofreu ataques dos EUA e Israel que, logo em seu primeiro dia, 28/02, causaram a morte de 168 meninas inocentes que estavam em uma escola atingida por um míssil estadunidense. Ataques que destruíram patrimônios históricos, hospitais, universidades e valiosas infraestruturas urbanas, vitimando a liderança iraniana e centenas de civis inocentes. Agressões claramente criminosas, tanto perante a consciência humana quanto diante do direito internacional.

Ainda assim, o povo iraniano não deixou de sair às ruas um dia sequer, mesmo com bombas caindo sobre suas cabeças, para proclamar a defesa da soberania de seu país.

Mas a Reuters constrói uma narrativa para tentar convencer o leitor de que o grande temor do iraniano não é a continuidade da guerra, mas sim a conquista de um eventual acordo de paz, pois isso fortaleceria o governo. Além de uma distorção despudorada da realidade, o que a Reuters faz é, para todos os efeitos, a propaganda pela continuidade da agressão.

A Reuters e a Ucrânia

Sigamos adiante. Como é sabido, inclusive pelos editores da Reuters, a Ucrânia sofreu um golpe de Estado em 2014, que derrubou o presidente eleito, Viktor Yanukovych.

O golpe foi financiado e organizado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, entronizando no poder uma caterva de neofascistas que elevou à condição de herói nacional Stepan Bandera, colaboracionista do nazismo.

O principal partido de esquerda na Ucrânia (o Partido Comunista da Ucrânia) foi posto na ilegalidade em 2015 e seus dirigentes enfrentam perseguição judicial, estão presos ou foram assassinados e isso não acontece apenas aos comunistas; ao todo 11 partidos foram proibidos na Ucrânia. Flávio Bolsonaro já declarou que a Ucrânia era um exemplo a ser seguido e, quando seu papai foi eleito presidente, chegou a apresentar, copiando a legislação ucraniana, um projeto de lei criminalizando o comunismo no Brasil.

Nada disso, é lógico, você vai ler na Reuters, que jamais menciona a resistência interna ucraniana, que existe e atua sob forte repressão. Mikhail Kononovich, primeiro-secretário da União da Juventude Comunista da Ucrânia foi espancado e preso em 2022 junto com o irmão, Aleksander, e ambos atualmente estão em prisão domiciliar enfrentando pesados processos por “traição”.

Em Kharkov, ucranianos fazem a saudação nazista no monumento ao holocausto

Nesta terça-feira (28) a Reuters publicou mais uma matéria sobre a Ucrânia, que confirma a disposição de parte da juventude ucraniana de enfrentar o regime neonazista, mas para chegar a esta conclusão você tem que cavar fundo em busca da verdade enterrada sob uma espessa camada de diversionismo.

O texto informa que “até fevereiro de 2026, o gabinete do Procurador-Geral da Ucrânia informou que 240 menores estavam envolvidos em crimes contra a segurança nacional (…) Desses, 102 foram detidos”.

Segundo a Reuters, nenhum dos 240 jovens é um opositor corajoso (como seria inevitavelmente qualificado caso fosse iraniano, ou cubano, ou chinês) TODOS são mercenários pró Rússia, traidores da Ucrânia. O título da matéria é: “Adolescentes ucranianos estão cometendo atos de traição. Como eles devem ser julgados?”. Vejam como a Reuters é imparcial e se importa com os direitos humanos!

Quem lê a matéria despreocupadamente, descobre uma Ucrânia humanista, preocupada, antes de mais nada, com a educação dos jovens prisioneiros. O texto apresenta o ponto de vista de professores que vão à cadeia ministrar aulas e descreve como uma professora, orgulhosa, mostra um artigo da Constituição ucraniana que garante o acesso de todos ao ensino. Mesmo os traidores.

A reportagem conta a história de Vitalli, 15 anos de idade, que teria sido subornado com 23 dólares por um agente russo para incendiar uma estação ferroviária. Ele foi preso em 2024 junto com outros companheiros que são igualmente “mercenários” a serviço da Rússia. Não tendo os 6 mil dólares para pagar de fiança, Vitalli foi o único a permanecer preso. Em determinado momento, a matéria reproduz uma “confissão” de Vitalli. Segue o texto da Reuters:

“Se eu pudesse falar com alguém pensando em fazer algo como eu fiz, eu diria a eles para não fazerem, disse ele em voz baixa, olhando para as mãos. Um guarda estava a uma distância que podia ouvir (…) naquele dia, o rosto de Vitalii estava pálido e havia olheiras sob seus olhos. Com o cabelo raspado e vestido com calça de moletom preta e chinelos, ele parecia pequeno para sua idade. Se condenados, Vitalii e os outros meninos enfrentam até uma década de prisão”.

Inadvertidamente, o texto acaba revelando um pouco da verdade que tenta ocultar. A verdade de uma sociedade ucraniana mergulhada na exclusão e no medo.

Entretanto, as pessoas, em sua imensa maioria, aceitam a mensagem principal que a reportagem propõe, e é sempre com isso que a Reuters e suas congêneres contam.

Como dizia Lênin, em seu relatório ao 1º Congresso da Internacional Comunista (1919), “Os capitalistas chamam liberdade de imprensa à liberdade dos ricos de subornarem a imprensa, à liberdade de utilizar a riqueza para fabricar e falsificar a chamada opinião pública. Os defensores da ‘democracia pura’ também se revelam de fato defensores do mais imundo e venal sistema de domínio dos ricos sobre os meios de educação das massas”.

Por Wevergton Brito Lima

 

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