Súmula Internacional

Súmula Internacional 137: O mito do Paraguai próspero

Leia mais: Rejeição de Milei supera os 60% / Israel mata 8 membros de família libanesa, incluindo bebê de 6 meses / Kast ataca luta social e seus aliados ameaçam PC do Chile com “dissolução”

A extrema-direita brasileira tem enaltecido o Paraguai como modelo de gestão econômica “libertária”, seja lá o que isso signifique.

No entanto, o país, de acordo com o Relatório da ONU de Desenvolvimento Humano 2025, com dados de 2023, tem o pior IDH do Mercosul e fica atrás também do IDH de Costa Rica, Panamá, Colômbia e Peru.

Em mortalidade infantil, a posição do país também apresenta indicadores ruins. São dezesseis óbitos para cada mil nascimentos, contra 5 no Chile, 6 no Uruguai, 7 em Costa Rica, 7 em Cuba, 8 na Argentina, doze no Brasil, doze no México e treze na Colômbia, segundo informam a UNICEF, o Banco Mundial e a ONU (dados 2023–2024).

No artigo “O mito do governo: Como se constrói a narrativa sobre o emprego e a estabilidade no Paraguai”, da pesquisadora Alhelí González Cáceres, é demonstrado que o discurso que apresenta o Paraguai como exemplo de sucesso econômico esconde uma realidade social marcada pela precarização do trabalho, informalidade massiva e baixos salários.

A autora aponta que os sucessivos governos colorados — especialmente o atual governo ligado ao cartismo (corrente do Partido Colorado liderada pelo ex-presidente Horacio Cartes) — construíram uma narrativa sustentada em três pilares: estabilidade macroeconômica, crescimento econômico e baixo desemprego.

O principal símbolo desse discurso é a divulgação de taxas historicamente baixas de desocupação, hoje entre 4% e 5%. Porém, esses números não refletem a verdadeira situação vivida pelo proletariado paraguaio.

O artigo questiona a metodologia utilizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), responsável pela Pesquisa Permanente de Domicílios. A crítica central é que a pesquisa considera “ocupada” qualquer pessoa que tenha trabalhado poucas horas na semana, mesmo em atividades extremamente precárias ou instáveis. Isso inclui vendedores ambulantes, motoristas de aplicativos, trabalhadores sem contrato e pessoas vivendo de pequenos “bicos”. Assim, a baixa taxa de desemprego convive com uma ampla deterioração das condições sociais.

Os dados mais recentes citados no artigo ajudam a dimensionar essa realidade. Cerca de 66% dos trabalhadores paraguaios estão concentrados no setor de serviços, marcado por precarização, baixa produtividade, rendimentos reduzidos e forte instabilidade. Já o agronegócio, principal fonte de divisas do país, emprega 13% da força de trabalho, enquanto a indústria absorve cerca de 20%.

Outro dado destacado é o nível de informalidade. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em dezembro de 2025 aproximadamente 70% dos trabalhadores paraguaios atuavam na informalidade, sem proteção social, direitos trabalhistas ou estabilidade.

A autora afirma que o modelo econômico paraguaio gera crescimento concentrado em setores exportadores, mas incapazes de criar empregos de qualidade em larga escala. O resultado é uma massa de trabalhadores obrigada a sobreviver por meio do autoemprego, aplicativos, comércio informal e atividades precárias.

A aparente “normalidade” econômica do Paraguai, afirma a autora, mascara uma profunda crise social. Apesar dos indicadores macroeconômicos positivos, grande parte da população enfrenta jornadas extensas, salários insuficientes, insegurança trabalhista e deterioração das condições de vida. Para Alhelí González, o “milagre paraguaio” depende justamente da invisibilização dessa precariedade estrutural. Leia o artigo completo (em espanhol), publicado no Adelante!, site do Partido Comunista Paraguaio, clicando aqui.

Rejeição de Milei supera os 60%

A popularidade do presidente argentino Javier Milei atravessa seu pior momento desde a chegada à Casa Rosada. Pesquisas recentes apontam rejeição acima de 60%, em meio ao agravamento da crise social, denúncias de corrupção e desgaste da narrativa “anticasta”. Segundo levantamento da Atlas Intel, divulgado no fim de abril, Milei soma 63% de desaprovação e apenas 35% de aprovação.

De acordo com reportagem de Opera Mundi, analistas argentinos identificam alguns fatores centrais para a queda de popularidade do governo: piora das condições de vida e escândalos envolvendo pessoas próximas do presidente com a consequente perda de credibilidade do discurso anticorrupção. Pesquisa da consultoria Zentrix mostra que 66,6% dos argentinos acreditam que Milei “passou a integrar a mesma casta” que prometia combater.

Entre os casos mais sensíveis estão suspeitas envolvendo a criptomoeda Libra, irregularidades no Ministério do Capital Humano, denúncias contra a irmã do presidente, Karina Milei e investigações sobre o chefe de gabinete Manuel Adorni, acusado de possuir imóveis incompatíveis com sua renda declarada.

Apesar da queda da inflação — de cerca de 250% ao ano para 33% —, os indicadores sociais seguem deteriorados. Dados oficiais apontam retração econômica, recuo industrial, desemprego de 7,5% e informalidade próxima de 43% da população economicamente ativa. Especialistas afirmam que o crescimento atual se concentra em setores que geram poucos empregos, como agronegócio, mineração e sistema financeiro.

Mesmo desgastado, Milei mantém uma base fiel estimada em cerca de 35% do eleitorado.

Israel mata 8 membros de família libanesa, incluindo bebê de 6 meses

Choro e desespero pela família chacinada, “todos se foram” / Foto: MAHMOUD ZAYYAT – AFP

O Estado de Israel continua violando o cessar-fogo e assassinando inocentes. Neste último sábado (09), os sionistas assassinaram 8 membros de uma mesma família, incluindo um bebê. A família havia deixado a cidade onde vivia devido a um alerta de evacuação emitido por Israel e se refugiado em Saksakieh, no sul do Líbano, que não estava em alerta de evacuação. O prédio onde a família se abrigou foi atingido por um ataque aéreo israelense.

O jornal O Globo informa que “na cidade portuária de Sidon, no domingo, pessoas vestidas de preto se reuniram em um cemitério para rezar pelos mortos da família. Entre as vítimas estavam um casal, três de seus filhos, um neto de 6 meses, o irmão do pai e uma avó, segundo parentes presentes no local”.

Os sionistas alegam que o prédio destruído era usado pela resistência libanesa ligada ao Hezbollah. Em seguida, provavelmente o Mossad divulgará uma foto do bebê morto portando um fuzil. Até quando?

Kast ataca luta social e seus aliados ameaçam PC do Chile com “dissolução”

Os principais representantes da extrema-direita chilena atacaram o Partido Comunista do Chile, inclusive considerando a possibilidade de criminalizar o grupo.

As declarações surgiram depois que a deputada do PC, Lorena Pizarro, expressou que “devemos nos organizar, devemos nos mobilizar” diante das medidas impopulares tomadas pelo governo.

O presidente José Antonio Kast publicou, na rede X, que o Partido Comunista está “buscando incitar tumultos nas ruas e interromper o progresso promovido democraticamente pelo Governo e pelo Congresso“, e associou a mobilização social à violência, afirmando que “os chilenos querem soluções, não mais violência”.

Em seguida, o presidente do Partido Nacional Libertário, Johannes Kaiser, argumentou que, se as mobilizações terminarem em violência um processo disciplinar deveria ser iniciado, o qual poderia levar à dissolução do Partido Comunista. Ele enfatizou que o Partido Comunista deveria ser responsabilizado por qualquer ato de violência cometido durante as atividades que está convocando.

Isso gerou preocupação no mundo político em relação à tese de vincular a mobilização social à violência e abrir, como em 1973, a possibilidade de banir o Partido Comunista da vida política.

O senador do Partido Socialista, Juan Luis Castro, respondendo às declarações de Kast e Kaiser, declarou: “As mobilizações acontecem quando o povo, os sindicatos, as associações profissionais, querem que aconteçam. Nenhum partido aqui controla todos os grupos organizados que querem se mobilizar”. Ele acrescentou: “A postura anticomunista do presidente Kast às vezes o leva a perder de vista o fato de que os surtos de descontentamento já começaram, porque seu índice de aprovação caiu nestes primeiros 60 dias, o aumento do preço da gasolina foi devastador, ele não conseguiu se recuperar da erosão de sua popularidade e, no fim das contas, o que ele espera? É evidente que as pessoas estão irritadas quando lhes prometem algo que não é cumprido”.

O legislador comunista Boris Barrera argumentou que a mobilização cidadã é a forma como as pessoas, o mundo social, “se expressam e é uma ferramenta democrática que está na Constituição, que está em tratados internacionais; portanto, para o presidente (Kast) sugerir que há violência por trás disso, acho extremamente grave e espero que ele possa corrigir suas declarações.”

A controvérsia, iniciada pelo presidente e reiterada pelo líder do Partido Nacional Libertário, surgiu após a deputada Lorena Pizarro declarar, em entrevista à Rádio Nuevo Mundo, neste último domingo (10), que “precisamos nos organizar, precisamos nos mobilizar, porque existe uma mentalidade que se consolidou após 1990, de que o Congresso resolve tudo”, aludindo ao fato de que o Legislativo debate projetos de lei com impacto social, mas que é necessário que o povo se mobilize para expressar suas opiniões sobre o assunto.

Ela enfatizou que “não seremos capazes de reverter o que o Executivo, este governo de extrema-direita, quer fazer se o povo não se organizar, se o povo não exigir que esses retrocessos criminosos sejam interrompidos“.

“Mobilizar-se em defesa dos direitos faz parte do jogo democrático”, finalizou. Fonte: El Siglo.

Se a morte aparta, o pranto um dia passa, / mas separar-se em vida é dor infinda. (1) / Na terra ao sul grassa a peste, miasmas, / e de um banido não chegam notícias. / Amigo antigo, em sonho me visitas, / pois saberás que muito me preocupo. / Eras, na rede, pássaro cativo, / como pudeste abrir asas à fuga? / E então pensavas, alma não mais sendo, / da longa via a não mais ver retorno. / A alma chega, bosque em bordos verde, / e sombra, parte, cruza a escura borda. / E então a luta, às vigas deste quarto, / a silhueta te rebrilharia. (2) / Que pelos mares, nas imensas vagas, / possas guardar-te dos dragões marinhos.”

Notas

1 – Poema no “estilo antigo” (gutishi), de regras menos rígidas que o “estilo novo” da Dinastia Tang, tende à forma narrativa, utilizando-se, ainda, de pronomes pessoais. Du Fu nutria por Li Bai, poeta dez anos mais velho, amizade respeitosa e profunda. Em 758, durante a rebelião de Na Lushan, Li Bai foi preso, condenado primeiro à morte e, depois, ao banimento a uma região inóspita e infestada de Malária no sul, em Yunnan. Du Fu temia pela vida do amigo, de quem não recebia notícias.

2 – Versos 13 e 14: despertado do sonho, Du Fu ainda vê a silhueta do amigo contra a lua.

Poema “De um sonho com Li Bai”, do poeta chinês Du Fu (712-770)– Tradução e notas de explicação de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao

 

Por Wevergton Brito Lima

 

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