Trinta anos depois, marcha uruguaia segue perguntando: “Onde estão?”
Ato em Madrid integrou mobilização internacional da 31ª “Marcha del Silencio” e reafirmou a luta por verdade e justiça no Uruguai.
Por Tiago Alves
Entre bandeiras uruguaias, faixas das “Madres y Familiares de Detenidos Desaparecidos” e cartazes perguntando “¿Dónde están?”, militantes latino-americanos se reuniram em Madrid em solidariedade à 31ª Marcha del Silencio do Uruguai. Convocada por organizações uruguaias, coletivos latino-americanos e movimentos de memória histórica, a atividade integrou a mobilização internacional realizada simultaneamente em diversas cidades do mundo.
A principal marcha ocorreu em Montevidéu na noite de 20 de maio, mas mobilizações também aconteceram em diferentes cidades da América Latina e da Europa. Além do Uruguai, atos foram registrados na Argentina, Chile, Espanha, França, Inglaterra e Suécia, reafirmando a dimensão internacional construída ao longo das últimas décadas pela luta uruguaia por memória, verdade e justiça.
Em Madrid, a concentração reuniu militantes uruguaios, integrantes da diáspora latino-americana, movimentos de direitos humanos e organizações de esquerda. Entre bandeiras uruguaias, flores desenhadas nos materiais da convocatória e faixas exigindo memória e justiça, a atividade começou com a leitura pública da carta da “31ª Marcha del Silencio”.
A edição deste ano carregava uma dimensão particularmente simbólica. Sob a consigna “30 anos marchando contra a impunidade de ontem e de hoje. Exigimos respostas. Onde estão?”, a mobilização marcava três décadas desde a primeira Marcha del Silencio realizada em 1996.
Mais do que um aniversário simbólico, os 30 anos da marcha reafirmavam a persistência de uma luta construída ao longo de gerações. Na carta divulgada pelas organizações da atividade, familiares recordaram que, desde a primeira mobilização, “centenas e milhares de mãos sustentam as fotos de nossos familiares” desaparecidos pela ditadura uruguaia.

Foto: Tiago Alves
O documento também destacava que a marcha deixou há muito tempo de pertencer apenas aos familiares diretos das vítimas da repressão e passou a ser abraçada por amplos setores da sociedade uruguaia. Segundo a carta, “maio é o mês em que todas as gerações se unem para sustentar a memória”.
A “Marcha del Silencio” tornou-se o principal símbolo da luta uruguaia por memória histórica. Organizada desde 1996 pelas Madres y Familiares de Uruguayos Detenidos Desaparecidos, a mobilização surgiu como resposta à permanência da impunidade em relação aos crimes cometidos durante a ditadura civil-militar uruguaia.
Ao longo dessas três décadas, a margarida branca com uma pétala ausente transformou-se em um dos principais símbolos da marcha e da memória democrática uruguaia. A flor incompleta representa os desaparecidos políticos da ditadura e a ausência ainda não respondida pelo Estado. Mais do que um elemento físico presente nas manifestações, a margarida passou a ocupar o imaginário político e afetivo construído em torno da luta por memória, verdade e justiça no Uruguai.
A própria carta da marcha relacionava diretamente a flor à construção coletiva dessa memória. “Maio se veste de margaridas pintadas em cada canto do país e do exterior”, afirmava o texto divulgado pelas Madres y Familiares.
A ditadura uruguaia, instaurada formalmente em 1973 e encerrada em 1985, foi um dos períodos mais violentos da história contemporânea do país. O regime foi marcado por perseguições políticas, censura, tortura sistemática, prisões arbitrárias e desaparecimentos forçados.

Foto: Tiago Alves
Proporcionalmente à população, o Uruguai tornou-se um dos países com maior número de presos políticos da América Latina durante as ditaduras do Cone Sul. Milhares de uruguaios passaram pelas prisões políticas do regime ao longo dos anos de repressão.
A repressão uruguaia esteve articulada à Operação Condor, coordenação repressiva entre ditaduras sul-americanas durante a Guerra Fria. Nesse contexto, as ditaduras brasileira e uruguaia mantiveram cooperação política e de inteligência na perseguição a militantes, exilados e organizações de esquerda.
Um dos episódios mais conhecidos dessa articulação repressiva foi o sequestro dos militantes uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Rodríguez Díaz, em Porto Alegre, em 1978. A operação envolveu agentes da repressão uruguaia com apoio de integrantes do DOPS brasileiro e tornou-se um dos casos mais emblemáticos da Operação Condor no Cone Sul.
A data de 20 de maio também recorda os assassinatos, em Buenos Aires, do senador Zelmar Michelini, do ex-presidente da Câmara dos Deputados Héctor Gutiérrez Ruiz e dos militantes Rosario Barredo e William Whitelaw Blanco, crimes associados à coordenação repressiva entre as ditaduras do Cone Sul no âmbito da Operação Condor.
A memória da ditadura uruguaia também permanece associada à trajetória de José “Pepe” Mujica. Ex-integrante do Movimiento de Liberación Nacional Tupamaros, Mujica passou cerca de 13 anos preso durante a ditadura.
Após a redemocratização, Mujica tornou-se uma das principais lideranças da esquerda uruguaia, ajudou a consolidar a Frente Ampla e chegou à presidência do Uruguai entre 2010 e 2015. A coalizão fundada em 1971 reúne comunistas, socialistas, movimentos populares e setores progressistas do país e segue sendo uma das principais forças políticas do Uruguai contemporâneo.

Foto: Tiago Alves
A mobilização em Madrid aconteceu poucos dias após completar um ano da morte de Mujica, cuja trajetória foi lembrada por participantes da atividade. Entre militantes uruguaios e latino-americanos, sua figura aparecia associada à resistência diante das prisões e perseguições promovidas pela ditadura.
Ao longo do ato em Madrid, elementos da cultura popular uruguaia também ajudavam a construir um ambiente de memória coletiva. Entre bandeiras da Frente Ampla, camisetas com a tradicional margarida associada à Marcha del Silencio, rodas de mate compartilhadas entre os participantes e garrafas térmicas cobertas de adesivos políticos, a atividade misturava memória política, convivência e identidade popular uruguaia. Bandeiras nacionais e faixas das organizações presentes reforçavam um ambiente onde memória histórica, solidariedade e identidade coletiva apareciam permanentemente entrelaçadas.
As imagens divulgadas pelas organizações convocantes da 31ª Marcha del Silencio ajudavam a sintetizar a força simbólica da mobilização. Rostos dos desaparecidos políticos apareciam formando a tradicional margarida branca associada à luta por memória e justiça no Uruguai, transformando ausência em presença coletiva.
A carta das Madres y Familiares também alertou para a permanência de obstáculos na busca por verdade e justiça. O texto afirma que “os arquivos seguem dispersos e muitos deles ocultos”, destacando a dificuldade de acesso a informações sobre os desaparecidos políticos e defendendo uma política integral de busca por parte do Estado uruguaio.
A presença de jovens tanto em Montevidéu quanto nas mobilizações internacionais também chamava atenção. Décadas após o fim formal da ditadura, novas gerações seguem participando das marchas e atividades por memória, verdade e justiça, demonstrando a permanência do tema na vida pública uruguaia.

Foto: Tiago Alves
Diferentemente de muitas manifestações políticas marcadas por carros de som e discursos permanentes, a Marcha del Silencio construiu sua identidade justamente no silêncio coletivo. Em Madrid, os participantes permaneceram reunidos diante das faixas e bandeiras das organizações enquanto as intervenções lembravam a permanência da luta contra a impunidade.
O momento mais emocionante da atividade na capital espanhola aconteceu após a leitura da carta. Em silêncio absoluto, os participantes ouviram um áudio com os nomes dos 205 desaparecidos políticos uruguaios reconhecidos oficialmente. A cada nome pronunciado, a concentração respondia coletivamente com uma única palavra.
“Presente”.
Entre bandeiras uruguaias e o silêncio compartilhado pelos participantes, o ato transformava ausência em presença coletiva.
O silêncio voltou a ocupar a concentração até o encerramento da atividade, quando os presentes cantaram coletivamente o hino nacional do Uruguai diante das faixas, símbolos da marcha e materiais das organizações participantes.
Ao final da atividade, os participantes realizaram uma fotografia coletiva como gesto de solidariedade, unidade e camaradagem entre compatriotas uruguaios e militantes latino-americanos reunidos em Madrid. Diante das bandeiras e faixas da marcha, o registro coletivo sintetizava o caráter internacional construído ao longo de três décadas pela luta uruguaia por memória, verdade e justiça.
A carta das Madres y Familiares também relacionou a luta uruguaia ao avanço contemporâneo de discursos negacionistas e revisionistas sobre as ditaduras latino-americanas. Segundo o documento, é necessário enfrentar “discursos negacionistas e revisionismos que buscam relativizar o terrorismo de Estado e suas consequências”.
Mais do que uma manifestação política tradicional, a Marcha del Silencio consolidou-se ao longo das últimas décadas como um dos principais símbolos públicos da luta latino-americana por memória, verdade e justiça.
Maio veste o Uruguai de margaridas. Mesmo quando aparecem apenas como símbolo e memória compartilhada, as flores incompletas seguem ocupando o imaginário construído em torno dos desaparecidos políticos uruguaios.
Trinta anos depois da primeira marcha, a pergunta continua atravessando gerações e fronteiras.
“Onde estão?”.
