Dirigente do PC de Israel vê “atmosfera fascista” se espalhar pela sociedade
Quando fala sobre o pós-7 de Outubro em Israel, Reem Hazzan insiste que a mudança mais assustadora não veio apenas do governo Netanyahu e de seu aparato repressivo contra a população árabe na Palestina ocupada. Para a dirigente palestina do Partido Comunista de Israel, o que se consolidou desde o início da guerra em Gaza foi uma transformação mais profunda e cotidiana: a sociedade israelense naturalizou o ódio e a violência.
Por Lucas Toth
“Depois de 7 de Outubro, as pessoas comuns começaram a agir como fascistas”, afirma. Em entrevista ao Portal Vermelho, Reem descreve um ambiente marcado por perseguições políticas, repressão a palestinos cidadãos de Israel, fortalecimento de colonos armados e expansão de discursos supremacistas que, segundo ela, passaram a circular abertamente nas ruas, universidades e locais de trabalho.
Para a secretária de Relações Internacionais do Partido Comunista de Israel, o trauma provocado pelo ataque do Hamas foi instrumentalizado pela extrema direita israelense para aprofundar o racismo antiárabe e legitimar políticas ainda mais violentas nos territórios palestinos ocupados. Ao mesmo tempo, afirma, setores da esquerda antiocupação passaram a enfrentar um nível inédito de intimidação e isolamento político.
“Aprendemos desde cedo que aquilo era discriminação”
Reem conta que cresceu em uma família profundamente ligada à militância política. Sua mãe e sua avó organizavam creches e iniciativas voltadas a mulheres trabalhadoras em Akka, articulando reivindicações feministas e de classe. “Desde muito pequena eu via a pobreza e a diferença nas condições de vida das pessoas na Cidade Velha. Aprendi cedo que aquilo era resultado de políticas de discriminação, porque somos palestinos e porque este é um Estado de ocupação”, disse.
Ela lembra que os palestinos que permaneceram dentro das fronteiras de Israel após a Nakba viveram sob regime militar entre 1948 e 1966. “Todas as pessoas que fugiram, foram deslocadas ou expulsas de suas aldeias se tornaram refugiadas palestinas. E também tivemos os refugiados internos dentro da própria sociedade palestina em Israel — pessoas que também perderam suas terras e casas, mas permaneceram dentro de Israel.”
Hoje, segundo ela, a segregação aparece principalmente na distribuição territorial, na educação e nos investimentos públicos. “Existem cidades mistas, como Akka e Haifa, onde árabes e judeus vivem juntos. Mas também existem cidades praticamente exclusivas para judeus, além de sistemas escolares separados para árabes e judeus”, explicou.
Ela afirma que a desigualdade pode ser percebida diretamente na estrutura urbana: “Você consegue ver a discriminação na diferença entre uma cidade árabe e uma cidade judaica. As cidades árabes são extremamente densas, sem áreas verdes, parques ou espaço para novas moradias”.
Segundo Reem, a própria trajetória de sua família expressava uma Palestina anterior ao fechamento das fronteiras imposto após a Nakba. Seu avô trabalhava em Bagdá, no Iraque, enquanto sua avó estudava na Universidade de Beirute, no Líbano — uma circulação regional que, segundo ela, era parte natural da vida palestina antes de 1948

Militante antiocupação confronta colono israelense durante ação na Cisjordânia ocupada; expansão dos assentamentos e violência de colonos se tornaram um dos principais focos de tensão após 7 de Outubro / Foto: Reprodução
“Era uma percepção completamente diferente da região e da terra”, afirmou. Segundo a dirigente, a Nakba “não aconteceu em um único dia”, mas ao longo de um processo que alterou profundamente a vida palestina na região.
Ela sustenta que os comunistas palestinos já denunciavam desde os anos 1930 o caráter colonial do projeto sionista. “Os comunistas palestinos entendiam o que estava sendo planejado para a região e começaram a se organizar contra isso”, disse.
“Depois de 7 de Outubro, tudo passou a ser proibido”
Reem rejeita a ideia de que a repressão contra palestinos dentro de Israel seja consequência exclusiva da guerra atual. Segundo ela, o que ocorreu após 7 de Outubro foi o aprofundamento de mecanismos repressivos e de uma atmosfera de desumanização que já existiam anteriormente. “Mesmo antes de 7 de Outubro, em Haifa, quando levantávamos bandeiras palestinas nos protestos, a polícia reprimia, batia nas pessoas e lançava gás abertamente”, relatou.
Segundo ela, os protestos palestinos já enfrentavam repressão policial frequente, mas ainda conseguiam ocorrer. “Conseguíamos protestar e organizar manifestações, mas precisávamos lutar por esse direito”, afirmou. Com o início da guerra, porém, o cenário mudou completamente. “Depois de 7 de Outubro, tudo foi proibido. Por um tempo não podíamos sequer protestar nas ruas”, disse.
A dirigente afirma que o principal elemento novo foi a disseminação de uma “atmosfera fascista” na própria sociedade israelense. “O principal problema depois de 7 de Outubro não foi apenas a polícia ou o governo. Foram as pessoas comuns começando a agir como fascistas”, revela. Ela relata “perseguições nos locais de trabalho, nas universidades, nas redes sociais. Acusações, demonização dos palestinos, intimidação, prisões por publicações nas redes sociais”.
Segundo Reem, o trauma provocado pelo ataque do Hamas foi utilizado pela extrema direita israelense para aprofundar discursos de desumanização dos palestinos. “Políticos como Ben Gvir e Smotrich começaram imediatamente a defender ‘aniquilem Gaza’, ‘matem todos’, ‘usem bomba nuclear’. E esse tipo de discurso ganhou legitimidade dentro de Israel”.
Colonos armados e “terrorismo judaico”
A dirigente do Partido Comunista afirma que o deslocamento de tropas israelenses para Gaza e para a fronteira com o Líbano abriu espaço para uma escalada ainda maior da violência de colonos na Cisjordânia ocupada. “Os colonos passaram a usar essa atmosfera fascista para tomar mais terras, matar palestinos e torturá-los”, afirmou.
Segundo ela, muitos dos atuais oficiais do Exército israelense vêm do movimento dos assentamentos e do chamado “sionismo religioso”, corrente ligada à defesa do “Grande Israel” e à expansão territorial messiânica. “Nos últimos anos, muitos sionistas religiosos passaram a ocupar postos de comando no Exército, especialmente na Cisjordânia”, disse. Para Reem, isso aproximou ainda mais o aparato militar israelense dos setores mais radicalizados do movimento dos colonos.

Colono armado observa palestinos na Cisjordânia; dirigente do Partido Comunista de Israel afirma que a violência de colonos ganhou legitimidade e proteção institucional após 7 de Outubro / Foto: Reprodução
“Hoje é o irmão do colono, seu amigo ou seu vizinho quem está comandando operações na Cisjordânia”, afirmou.
Reem também chama atenção para o crescimento do que define como “terrorismo judaico”, expressão que, segundo ela, já passou a ser utilizada inclusive por setores da esquerda sionista israelense. Ela relata que parte dos colonos violentos é recrutada entre jovens vulneráveis transferidos para assentamentos na Cisjordânia.
“Você pega jovens vulneráveis, facilmente manipuláveis, e os coloca dentro desse ambiente”, afirmou. “Eles usam até mesmo grupos vulneráveis da sociedade para alimentar a indústria dos assentamentos e sua expansão.”
Segundo ela, a radicalização ganhou respaldo institucional após o início da guerra. “Ninguém é responsabilizado. Isso é apoiado pelo governo, pelo Exército e pela polícia. Então por que essas pessoas sentiriam que estão fazendo algo errado?”, questionou.
“O fascismo cresce sobre o desespero”
Para Reem, o governo Benjamin Netanyahu trabalhou durante décadas para inviabilizar qualquer solução política para a questão palestina, destruir a credibilidade dos Acordos de Oslo — assinados nos anos 1990 entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) com a promessa de uma futura solução de dois Estados — e fortalecer uma lógica permanente de militarização. “O fascismo cresce sobre o desespero”, afirmou.

Os ministros Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, principais líderes da extrema direita israelense e defensores da expansão dos assentamentos na Cisjordânia ocupada, durante sessão no Parlamento israelense / Foto: Reprodução
Segundo ela, tanto o povo israelense quanto o palestino passaram a viver sem qualquer horizonte político. “A população israelense já não consegue enxergar outra solução além da violência e do militarismo”, disse. “E a sociedade palestina está totalmente desesperançada porque também não vê horizonte político.”
Apesar disso, Reem afirma que ainda considera fundamental disputar a sociedade israelense e impedir o isolamento da esquerda antiocupação: “Nosso principal papel é transformar a sociedade israelense: torná-la mais favorável à paz e menos favorável à guerra e ao militarismo”.
