Ana Prestes: O Brasil diante de uma batalha decisiva pela democracia, pela soberania e pelos direitos do povo
Nos dias 8, 9 e 10 de outubro realizou-se o 30º Seminário Internacional do Partido do Trabalho do México, intitulado “Os partidos e uma nova sociedade”. O seminário do PT do México é um dos principais espaços internacionais da esquerda mundial, e em 2026 reuniu representantes de 43 países e 241 partidos, organizações e movimentos.
Importantes lideranças da esquerda estiveram presentes, como o ex-presidente colombiano Gustavo Petro, entre outros. A denúncia da interferência dos EUA nos assuntos internos e nas eleições de diversos países foi um ponto comum.
Como já é tradição, no dia seguinte ao final do Seminário (dia 11) reuniu-se o Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo. Tanto no seminário quanto no GT do FSP o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foi representado por uma delegação formada por Ana Prestes (Secretária de Relações Internacionais) e Flávia Calé (Secretária da Mulher). O Partido fez intervenções em ambas as atividades.

A secretária-executiva do Foro de São Paulo, Mônica Valente (PT), dirige a reunião do Grupo de Trabalho
O texto abaixo, que dá título à matéria, reproduz a fala de Ana Prestes na reunião do GT do Foro de SP, na qual a dirigente comunista falou sobre a conjuntura nacional em nome da delegação brasileira, formada pelos representantes do PT e do PCdoB. Leia a íntegra a seguir.
Companheiras e companheiros, camaradas, amigos e amigas,
Em nome da delegação brasileira, transmitimos a todos e todas uma calorosa saudação de luta e solidariedade.
Vivemos no Brasil um momento de extraordinária importância política. Nosso país acaba de realizar, no último dia 4 de outubro, o primeiro turno das eleições gerais, em um cenário marcado por uma intensa disputa entre dois projetos profundamente distintos para o futuro da nação.
De um lado, o projeto democrático, popular e soberano, representado pela candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sustentado por uma ampla aliança política e social da qual fazem parte o Partido dos Trabalhadores, o Partido Comunista do Brasil e outras forças progressistas e democráticas.
De outro, a extrema-direita, representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro, expressão de uma corrente política autoritária, conservadora e profundamente vinculada aos interesses do imperialismo estadunidense.
O resultado do primeiro turno revelou uma correlação de forças complexa e preocupante. Apesar da força política e da expressiva votação do presidente Lula, o candidato da extrema-direita chegou à frente por uma margem de apenas 1,8 ponto percentual.
Ao mesmo tempo, as forças conservadoras e de extrema-direita ampliaram sua presença institucional, particularmente no Congresso Nacional e nos governos estaduais.
Não podemos subestimar a gravidade desse quadro. Mas tampouco podemos ignorar a resistência demonstrada por amplos setores do povo brasileiro e pelas forças democráticas, populares e de esquerda.
A disputa permanece aberta, e o segundo turno será decisivo não apenas para o futuro imediato do Brasil, mas também para os rumos políticos da América Latina e do Caribe.
Companheiras e companheiros,
Para compreender o que ocorre em nosso país, é necessário situar a batalha brasileira no contexto internacional.
Vivemos um período de aprofundamento das contradições do capitalismo contemporâneo, de crescimento das desigualdades e de uma ofensiva internacional de forças de extrema-direita que procuram transformar a insegurança econômica, o descontentamento social e os preconceitos em instrumentos de mobilização política.
Essa ofensiva assume características particularmente graves sob o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos.
A atual administração estadunidense desenvolve uma política agressiva de reafirmação de sua hegemonia, especialmente em relação à América Latina, que continua sendo tratada por Washington como uma região subordinada aos seus interesses estratégicos.
As ameaças e agressões contra a Venezuela, o recrudescimento das pressões contra Cuba, as medidas econômicas coercitivas e as tentativas de interferência nos assuntos internos de países soberanos fazem parte dessa orientação.
O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário.
Somos o maior país da América Latina, possuímos imensas riquezas naturais, uma importante capacidade produtiva, um vasto mercado interno e exercemos papel relevante na construção de um mundo multipolar.
A política externa do presidente Lula, baseada na independência nacional, no multilateralismo, na cooperação Sul-Sul, no fortalecimento do BRICS e na defesa da paz, contraria os interesses daqueles que pretendem perpetuar uma ordem internacional unipolar.
Por isso, a disputa política brasileira adquiriu uma dimensão geopolítica particularmente importante.
O governo Trump atua para favorecer uma alternativa política alinhada aos interesses de Washington. A extrema-direita brasileira, por sua vez, procura apresentar a subordinação aos Estados Unidos como caminho para o desenvolvimento nacional.
Estamos, portanto, diante de uma disputa que envolve não apenas a democracia e os direitos sociais, mas também o direito do povo brasileiro de decidir livremente seu destino.
Caros camaradas,
É importante recordar em que condições o presidente Lula retornou ao governo, em janeiro de 2023.
O Brasil saía de um período de graves retrocessos sociais, desestruturação de políticas públicas, ataques às instituições democráticas, estímulo ao negacionismo científico e deterioração das condições de vida de milhões de famílias.
A fome havia retornado de maneira dramática, o salário-mínimo perdera poder de compra e importantes instrumentos de desenvolvimento econômico e proteção social haviam sido enfraquecidos ou até mesmo destruídos.
Nos últimos anos, o governo Lula empreendeu um amplo esforço de reconstrução nacional.
O Brasil voltou a apresentar níveis historicamente baixos de desemprego, recuperou a política de valorização do salário-mínimo, ampliou investimentos públicos e fortaleceu programas sociais.
Nosso país saiu novamente do Mapa da Fome das Nações Unidas, avançou na expansão das políticas de saúde e educação, recuperou investimentos em infraestrutura e retomou políticas de incentivo à indústria, à ciência e à tecnologia.
Uma importante reforma do Imposto de Renda ampliou a isenção para milhões de trabalhadores e estabeleceu mecanismos de maior tributação das altas rendas.
Ao mesmo tempo, o governo recuperou a presença internacional do Brasil, restabelecendo relações de cooperação, fortalecendo a integração latino-americana e defendendo uma ordem mundial mais democrática e equilibrada.
São conquistas importantes, embora reconheçamos que os problemas estruturais do país continuam exigindo mudanças profundas.
O Brasil permanece marcado por enormes desigualdades sociais, concentração de renda e riqueza, insuficiência de investimentos produtivos e forte influência do capital financeiro sobre a política econômica.
A elevada taxa de juros, os limites impostos ao investimento público e a resistência de setores conservadores do Congresso Nacional constituem obstáculos importantes à realização de um projeto de desenvolvimento mais avançado.
Por isso, nossa proposta não é simplesmente preservar as conquistas alcançadas.
Queremos inaugurar uma nova etapa de desenvolvimento nacional soberano, com valorização do trabalho, redução das desigualdades e ampliação dos direitos democráticos e sociais.
Isso significa promover a reindustrialização do país em novas bases tecnológicas, fortalecer as empresas públicas estratégicas, ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação e assegurar que nossas riquezas naturais estejam a serviço do desenvolvimento nacional.
Significa também ampliar a proteção social, fortalecer nosso sistema público de saúde, garantir educação de qualidade, enfrentar a violência contra as mulheres, combater o racismo e promover uma transição ecológica socialmente justa.
Entre os compromissos centrais de nossa agenda estão a redução da jornada de trabalho, com o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso, sem redução salarial, e a ampliação dos direitos dos trabalhadores submetidos às novas formas de exploração pelas plataformas digitais.
Defendemos uma economia que esteja a serviço das pessoas, e não subordinada aos interesses dos rentistas e dos grandes grupos financeiros.
Companheiras e companheiros,
A eleição presidencial brasileira expressa, assim, uma contradição fundamental entre projetos antagônicos. Não se trata apenas de uma disputa convencional entre diferentes programas de governo.
Está em questão a própria orientação histórica do Brasil e seu papel no cenário internacional.
Essa realidade exige de nós uma resposta política ampla e articulada.
O PT, o PCdoB e as demais forças que integram a aliança democrática – PV, PSB, PSOL, REDE e PDT – compreendem que a tarefa central deste momento é ampliar a unidade política e social em defesa da candidatura do presidente Lula.
Isso implica dialogar com setores que não estiveram conosco no primeiro turno, incluindo forças de centro, personalidades democráticas, organizações populares, entidades sindicais, movimentos sociais, intelectuais, artistas e setores produtivos comprometidos com a democracia e a soberania nacional.
Implica, sobretudo, intensificar nossa presença nas ruas, nos locais de trabalho, nas universidades, nas comunidades e nas redes digitais.
O primeiro turno mostrou que existe uma poderosa base social e política de resistência à ofensiva conservadora.
Milhões de brasileiros e brasileiras mantiveram sua confiança em Lula e no projeto democrático e popular, apesar das enormes pressões políticas, econômicas e midiáticas.
É sobre essa força que pretendemos construir a mobilização para a etapa decisiva das eleições.
A extrema-direita já domina boa parte dos governos estaduais, do Senado e da Câmara dos Deputados. Em termos eleitorais, o voto em Lula é a última linha de defesa da liberdade e da pátria.
Assim, ao lado da denúncia sobre os direitos sociais e trabalhistas que estão sob risco, devemos insistir com os indecisos e abstencionistas de que a vitória de Flávio Bolsonaro representa uma séria ameaça à democracia e à soberania nacional.
Mas sabemos também que a luta não se encerrará nas urnas.
Independentemente do resultado eleitoral, continuaremos enfrentando desafios históricos relacionados à democratização do Estado, à construção, em condições desfavoráveis, de uma base parlamentar comprometida com os interesses populares e à superação das estruturas econômicas e sociais que reproduzem a desigualdade.
Queridos camaradas,
Uma vitória das forças democráticas brasileiras representaria um importante estímulo para os povos da América Latina e do Caribe e para todos aqueles que defendem a paz, a autodeterminação e um mundo multipolar.
O Brasil tem condições de cumprir um papel construtivo na integração regional, no fortalecimento dos mecanismos de cooperação internacional e na defesa de uma ordem mundial baseada na igualdade soberana entre as nações.
Reafirmamos nossa solidariedade ao povo cubano, ao povo venezuelano, ao povo palestino e a todos os povos que enfrentam agressões, bloqueios, ocupações e ameaças à sua autodeterminação.
Defendemos a solução pacífica dos conflitos, o respeito ao direito internacional e o direito de cada povo escolher livremente seu caminho de desenvolvimento.
Neste momento decisivo, a solidariedade internacional possui um significado concreto.
Acompanhamos com atenção e gratidão as manifestações de apoio dos partidos, movimentos e organizações populares de diferentes países à democracia brasileira e ao direito de nosso povo decidir seu próprio futuro, sem ingerências externas.
Transmitimos a todos uma mensagem de confiança na capacidade de organização, resistência e mobilização do povo brasileiro.
Nossa história demonstra que os avanços democráticos e sociais nunca foram concessões espontâneas das classes dominantes. Foram conquistas da luta organizada dos trabalhadores e das forças populares.
É com esse espírito que enfrentamos os desafios atuais.
Seguiremos unidos na defesa da democracia, da soberania nacional, dos direitos dos trabalhadores, da justiça social e da paz.
Viva a solidariedade entre os povos!
Viva a luta pela democracia, pela soberania e pela paz!
Muito obrigada!
