Luta dos povos

Gennady Zyuganov: Pela paz e amizade entre os povos, contra a guerra e o fascismo!

A intervenção de G. Zyuganov, principal líder do Partido Comunista da Federação Russa, anfitrião do 3º Fórum Antifascista, merece ser lida com atenção. Ele faz um apanhado da evolução da luta dos povos desde a ascensão do capitalismo como modo dominante de produção até os dias de hoje, fundamentando, de forma rica e detalhada, a visão do PCFR sobre os principais desafios das forças de esquerda e revolucionárias nos dias de hoje. Leia abaixo a íntegra.

Intervenção do Presidente do Comité Central do Partido Comunista da Federação da Rússia, G. Zyuganov, no 3º Fórum Internacional Antifascista

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Fórum Antifascista reúne delegações de 100 países em Moscou sob lema “Contra o terrorismo e o imperialismo” (clique aqui para seguir o link)

Declaração Final do 3º Fórum Antifascista de Moscou (clique aqui para seguir o link)

Prezados camaradas! Caros amigos! Companheiros!

Estamos reunidos no 3º Fórum Internacional Antifascista para discutir os nossos objetivos comuns na luta pela paz e segurança, pela amizade entre os povos e pela justiça social. Essa atividade multifacetada das forças de esquerda não pode ser conduzida isoladamente, sem a luta contra o imperialismo e o terrorismo de Estado, contra a agressão militar e o neocolonialismo, contra o reacionarismo e o neofascismo.

A expansão global do capital continua. Esta expansão atinge os seus objetivos apoiando-se em dois pilares principais: a força física e a manipulação da consciência.

Ainda na Roma antiga, Cícero insistia que, para que um Estado prosperasse plenamente, era necessária uma “união da espada e do bico de pena”. Ele se referia a uma combinação do poderio militar e do poder de persuasão. Séculos depois, o italiano Maquiavel ecoou essa ideia. Ele aconselhava o governador a emular tanto o leão quanto a raposa, combinando coragem com astúcia.

O surgimento do protestantismo foi um marco fundamental no estabelecimento do capitalismo. O cristianismo primitivo elogiava a moralidade e a vida de acordo com os “cânones dados por Deus”. Advogava o auxílio aos pobres e condenava os excessos. Esse protestantismo, novo naquela época, vinculava diretamente a fé ao enriquecimento. O sucesso material, ensinavam os pregadores protestantes, era a prova visível de que a pessoa era “agradável a Deus”. A pobreza e a privação eram interpretadas como o “sinal de uma maldição”.

Assim, criou-se na Europa um fundamento ideológico para o enriquecimento, a exploração e a expansão. Aos olhos dos capitalistas, seus próprios cidadãos simples e os de outros continentes eram “párias”. Suas riquezas deveriam ser confiscadas em favor dos “escolhidos por Deus”. Foi com base nessas ideias perversas que surgiram impérios burgueses.

O Ocidente obteve grande sucesso no que tem a ver com a combinação de vários métodos de dominação. Isso lhe permitiu tornar-se a principal potência global e exercer influência sobre toda a humanidade. Para manter a sua hegemonia, fez uso extensivo dos meios de reprogramação e alteração da consciência pública. Com o desenvolvimento de novas tecnologias, esse sistema tornou-se verdadeiramente global.

No início deste século, afirmava-se que a internet destruiria o monopólio da informação. Esse otimismo se provou-se errado. Ter na propriedade os meios de produção é a chave para o domínio econômico e político. E não importa se se trata da produção material ou da informação.

Acreditar que os proprietários das plataformas da internet, das redes sociais, dos servidores globais e dos centros de dados são movidos por ideias de liberdade e democracia, é o cúmulo da ingenuidade. Seus objetivos são a exploração, o lucro máximo e a concentração de poder.

O mesmo está acontecendo com a “inteligência artificial”. Não é um presente do Destino ou de programadores benevolentes para todos os outros. É mais um recurso nas mãos daqueles que detêm o capital. É bastante claro que os capitalistas a usarão para se enriquecer e fortalecer seu domínio.

Entender esses fenômenos é crucial para o sucesso da luta que estamos travando. Nossos oponentes ideológicos estão fazendo tudo o que podem para estabelecer um monopólio na “esfera dos significados”. Isso fortalece as forças do capital global na batalha pelo futuro da humanidade.

Mesmo em meio a uma crise do capitalismo, com o declínio dos antigos centros de desenvolvimento e o surgimento de novos, a oligarquia global pode passar muito tempo “embaralhando as cartas”. Pode colocar pessoas e países uns contra os outros, inventando sempre novas “imagens dos inimigos”. Pode se disfarçar de “farol de liberdade e democracia” ou de “defensor dos valores tradicionais”. Fará tudo o que puder para impedir que as pessoas percebam seus interesses de classe e compreendam que as raízes dos problemas não estão ligadas às peculiaridades de raças e nações, a costumes e culturas. Elas têm a ver com o sistema socioeconômico, com a propriedade dos meios de produção.

Compreender isso e abrir os olhos do povo trabalhador é a tarefa mais importante dos comunistas e de todas as forças patrióticas populares. Sem se reconhecer como classe, o proletariado será um brinquedo nas mãos do capital. Será forçado a aceitar ideias e valores que não são seus. Como escreveu Antonio Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, o povo trabalhador deve adquirir uma nova visão de mundo. O dever dos comunistas é ajudar o proletariado a adquirir consciência de classe e desenvolver um novo conceito de vida.

A burguesia impõe habilmente sua moral e regras de conduta às massas. O Ocidente utiliza destramente os mecanismos de manipulação mental. Se um Estado governado por capitalistas começa a vacilar, ele é salvo pela estrutura da sociedade burguesa. O Estado é apenas uma trincheira na linha de frente do capitalismo. Atrás dele, encontra-se uma robusta cadeia de fortalezas ideológicas e casamatas criadas pela oligarquia.

Um ataque frontal rápido não irá superar essa defesa. Uma “guerra posicional” completa e prolongada é necessária para conquistar a consciência dos trabalhadores, para atraí-los a mudar do campo burguês para o seu próprio campo proletário.

Deve-se lembrar que o Ocidente nem sempre foi a “locomotiva” da economia global. Até aos séculos XVII e XVIII, a economia europeia era significativamente menor do que a da China, da Índia e de várias outras sociedades. Foi a expansão desenfreada e implacável, disfarçada por falsos conceitos de “messianismo” que fez da Europa a líder. As raízes do fascismo e de outras formas de dominação encontram-se nela.

A ideia de superioridade racial branca serviu de justificativa para as conquistas coloniais. Justificou o genocídio de populações indígenas e o tráfico de escravos. Os habitantes das colônias eram vistos como seres inferiores. Os direitos humanos não se estendiam a eles.

Em 1825, a “Doutrina da Descoberta” da Suprema Corte dos Estados Unidos, estabeleceu que a propriedade da terra pertence àqueles que a “descobriram”.

Os nativos americanos, que ali viviam durante séculos, foram privados desse direito. Foi assim criada a base “legal e reguladora” para expulsar em massa os povos aborígenes, que passaram a viver nas reservas indígenas de modelo norte-americano, e para eliminar estes povos.

Muitos ideólogos ocidentais estiveram envolvidos na justificativa do racismo. Um deles, o inglês Thomas Carlyle, escreveu um ensaio, The Nigger Question.

Na opinião dele, Deus designou os negros para serem escravos daqueles “que nasceram seus senhores.” Carlyle denunciou com raiva os ativistas antiescravagistas como “sindicatos de proteção aos canalhas.”

O ideólogo do imperialismo britânico, Cecil Rhodes, insistiu: “Deus deseja a dominação da raça Anglo-Saxônica.” Ele escreveu: “Levantei os olhos para o céu e os abaixei até o chão. E eu disse a mim mesmo: ambos deveriam se tornar britânicos. E se abriu para mim … que os ingleses são a melhor raça digna do domínio global.

No seu livro “Mein Kampf”, Adolf Hitler apresentou o Império Britânico do século XIX como um exemplo para os alemães. Ele baseou sua doutrina racial em grande parte nas obras do inglês Houston Chamberlain. Joseph Goebbels, o principal propagandista do Terceiro Reich, o chamou de “o pai do nosso espírito“.

As ideias racistas acompanharam as conquistas capitalistas desde o início. O sistema burguês baseia-se no aumento dos lucros a qualquer custo. Primeiro, o incipiente capital europeu confiscou as terras dos camponeses e os forçou a trabalhar em workhouses. Depois, começou a conquistar nações e a destruir civilizações inteiras. “A indústria em larga escala criou o mercado global, preparado pela descoberta da América“, escreveram Karl Marx e Friedrich Engels.

Uma nova etapa da expansão global do capital começou com a transição para o imperialismo. Vladimir Lênin identificou as suas principais características. Primeiro, a concentração da produção e do capital que levaram à criação de monopólios com seu papel decisivo na vida econômica. Segundo, a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação do “capital financeiro”, uma oligarquia financeira. Terceiro, a exportação de capital, que se torna mais importante do que a exportação de mercadorias. Quarto, a formação de alianças capitalistas monopolistas internacionais e a redistribuição do mundo. Quinto, a conclusão da divisão do planeta entre as grandes potências.

Lênin caracterizou o imperialismo como um sistema global de opressão colonial e de estrangulamento financeiro da vasta maioria da população do mundo por um pequeno grupo de países imperialistas. O fundador do bolchevismo demonstrou que o imperialismo é caracterizado por reacionarismo, parasitismo e decadência. O grande capital estabelece sua ditadura sobre a sociedade. Busca suprimir os movimentos operários e de libertação nacional. O reacionarismo se intensifica. O militarismo cresce.

Sob o imperialismo, a burguesia está disposta cada vez mais a controlar totalmente a vida da sociedade. “O capital financeiro busca a dominação, não a liberdade“, enfatizou Lênin. “O reacionarismo político generalizado é uma característica do imperialismo.”

O desenvolvimento econômico atrai milhões de pessoas para a produção e dissemina a alfabetização. Isso faz com que os exploradores necessitem cada vez mais dos métodos mais sofisticados de dominação — a manipulação da consciência.

A conexão ideológica entre o capitalismo anglo-saxão e o fascismo não se limitava a isso. O capital ocidental, na prática, fomentou regimes fascistas na Alemanha, Itália, Espanha e outros países. O fascismo italiano e o nazismo alemão gozavam de amplo apoio da oligarquia. Foi uma resposta à onda revolucionária na Europa após a Primeira Guerra Mundial. A República Soviética da Baviera, a Revolta de Hamburgo e as greves em massa apontavam para uma profunda crise do sistema burguês.

Já em 1922, formou-se, na Baviera, um círculo dos proprietários das empresas industriais que depositaram sua fé em Adolf Hitler. Grandes somas de dinheiro fluíram para os fascistas alemães vindas de Henry Ford, nos Estados Unidos. Em 1938, Hitler concedeu-lhe a Grã-Cruz da Águia Alemã, a mais alta condecoração do Reich para estrangeiros.

O apoio aos nazistas cresceu rapidamente. O partido era patrocinado por grandes magnatas industriais e financeiros da Alemanha. Entre os apoiadores dos fascistas estavam representantes do Deutsche Bank, do Commerzbank e da Imperial Credit Society (Sociedade de Crédito Imperial).

A aliança entre as grandes empresas e os nazistas culminou na reunião de 20 de fevereiro de 1933. Os chefes de corporações e bancos endossaram o curso de Hitler rumo à ditadura. Uma semana depois, o Reichstag foi incendiado. Essa provocação criou um pretexto para a eliminação de oponentes e represálias contra os comunistas.

As potências ocidentais contribuíram para o fortalecimento do nazismo. Londres e Washington observaram calmamente enquanto os nazistas renegavam o Tratado de Versalhes, criavam a Wehrmacht e embarcavam em um caminho de militarização acelerada. Continuaram a emprestar dinheiro à Alemanha, fornecendo-lhe matérias-primas estratégicas, participando da construção de uma frota de submarinos e fornecendo armas e materiais.

O regime de Mussolini também recebeu apoio dos Estados Unidos. A Casa Morgan concedeu grandes empréstimos. A Itália tornou-se um dos principais receptores de capital estrangeiro na Europa. Washington, cinicamente, fechou os olhos ignorando a política externa agressiva de Roma.

Prezados camaradas! Falta menos de um mês para uma data trágica na história do Mundo. Fará 85 anos desde o dia do ataque do fascismo de Hitler à União Soviética e o início da Grande Guerra Patriótica de 1941–1945.

A luta heroica do povo soviético, liderado pelo Partido Comunista, levou à derrota do fascismo. O povo soviético pagou um preço altíssimo por nossa sagrada vitória. Um em cada seis cidadãos da URSS morreu no campo de batalha. Um em cada três bielorrussos. E um em cada dois comunistas.

Mas enquanto o capitalismo sobreviver, seu arsenal sempre incluirá o fascismo, o terror, o genocídio e outros crimes sangrentos.

A atitude das potências ocidentais em relação aos criminosos nazistas no pós-guerra foi extremamente reveladora. Muitos deles escaparam da punição. Colaboraram com os Estados Unidos e participaram da criação da OTAN. Tornaram-se guerreiros da Guerra Fria, trabalhando para a Rádio Liberdade, a Deutsche Welle e outros veículos de comunicação antissoviéticos. Tudo isso é evidência direta da profunda simbiose entre o grande capital, as elites liberais e os regimes fascistas. Juntos, formaram uma única falange de opressores das esperanças revolucionárias da humanidade.

O capital oligárquico jamais abandonou os seus planos de vingança e de revanche. Cidades e vilas soviéticas ainda estavam em ruínas quando os antigos aliados no Ocidente já tramavam planos para um ataque nuclear contra a URSS. Começou a Guerra Fria. Conflitos sangrentos ocorreram na Coreia e no Vietnã.

O capitalismo utilizava todas as maneiras para salvar do colapso os impérios coloniais. Afogou os movimentos de libertação nacional em sangue. O terror nunca desapareceu do arsenal do capitalismo. Temos milhares de provas disso! Apresentamos algumas delas no filme “Imperialismo e Terror”, no “Linha Vermelha”, canal de televisão do Partido Comunista da Federação da Rússia. O nosso fórum começou com a exibição deste filme.

O imperialismo direcionou suas forças mais maliciosas para minar o principal baluarte do movimento de libertação — a URSS. Infelizmente, isso foi o que eles conseguiram fazer. No entanto, a derrota temporária da União Soviética não se tornou um triunfo para o grande capital. O Partido Comunista chinês ergueu a bandeira do socialismo. O país tornou-se líder mundial em desenvolvimento econômico e social.

Enquanto existiram a URSS, o Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON) e o Pacto de Varsóvia, o capital teve um inimigo comum e o desejo de vencer a competição contra o socialismo. Tudo isso se tornou um poderoso incentivo para o desenvolvimento. Os capitalistas melhoravam a qualidade dos seus produtos, faziam concessões aos trabalhadores e expandiam as garantias sociais.

Com o colapso da URSS, iniciou-se uma degradação abrangente do capitalismo. Ela ocorre na economia e na vida social, na política e na moral. A crise das instituições democráticas e do sistema eleitoral se intensificou.

O capital responde aos seus crescentes problemas com uma militarização aberta. Isso provoca tensões internacionais. A ameaça de uma nova guerra mundial aumenta.

As potências ocidentais intensificaram as suas práticas de neocolonialismo. As suas principais ferramentas são o sistema do dólar, a servidão por dívida no FMI e no Banco Mundial, a pressão informacional e o uso da chamada quinta-coluna pró-Ocidente. Sanções, provocações, “revoluções coloridas” e intervenções militares são usadas contra os Estados indesejáveis. Os povos da Iugoslávia, Iraque, Líbia, Síria, Irã e Venezuela vivenciaram isso na forma mais brutal.

As forças do reacionarismo global são particularmente cínicas na forma com que tramam contra nossa fraterna Ucrânia. Transformaram-na num campo de treino militar, declarando guerra ao Mundo Russo. Estamos a prestar assistência integral àqueles que lutam na linha da frente contra o nazismo à moda “Bandera” (1). Já enviámos mais de 150 comboios humanitários para Donbas. Recebemos regularmente crianças que vêm de lá para se recuperarem e descansarem. Expressamos a nossa gratidão a todos os que estão a ajudar nesta tarefa extremamente importante!

Agradecemos sinceramente aos partidos e movimentos, cujos representantes vieram a este Fórum, pela sua posição baseada nos princípios e pela sua solidariedade com a posição antifascista do nosso país nestes tempos difíceis.

Expressamos uma gratidão especial ao povo coreano pela sua determinação e coragem na luta contra o neofascismo.

O capital iniciou o desmantelamento do Estado de bem-estar social. A onda neoliberal provocou a resistência das massas populares. O descontentamento entre as populações dos Estados Unidos, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália e outros países está crescendo. Está a desenrolar-se um protesto dos trabalhadores contra as políticas das autoridades burguesas.

Ao mesmo tempo, o movimento anticolonial está se ampliando. Os países do Sul Global exigem cada vez mais a completa libertação do legado das políticas coloniais ocidentais. As condições para uma mudança positiva em larga escala estão sendo gradualmente criadas no nosso planeta. Esse processo deve se tornar irreversível.

As iniciativas da China são particularmente importantes para a criação de um mundo mais justo. Seguindo o conceito da “Comunidade com um Futuro Compartilhado para a Humanidade”, o presidente chinês Xi Jinping fez propostas importantes nas áreas do desenvolvimento global, segurança e interação civilizacional. No setembro passado, foi apresentada, em Tianjin, uma iniciativa sobre governança global. Simbolicamente, isso foi feito na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai. Os membros da OCX e do BRICS são chamados a desempenharem um papel especial na criação de um novo sistema de relações internacionais.

O capital global está respondendo aos esforços para enfraquecer a sua posição, tomando medidas para estabelecer o controle total sobre a humanidade. Para esse fim, pretende usar os meios de comunicação mais recentes: a Internet, as mídias sociais e a inteligência artificial. Hoje em dia, esses objetivos não são mais um segredo.

A existência desses objetivos é claramente indicada em publicações dos executivos da Palantir Technologies.

Ainda no início deste século, no meu artigo “Globalismo e o ‘Novo Imperialismo’’, enfatizei: “Uma terceira guerra mundial está efetivamente se alastrando pelo planeta… Primeiro foi ‘fria’, depois ‘morna’, depois ‘quente’. E agora, com o avanço do globalismo, está rapidamente entrando em uma fase fervente… A humanidade sentou-se sobre um barril de pólvora, ao redor do qual mais e mais faíscas estão se acendendo.”

O mundo de hoje está passando por uma transição para a multipolaridade. A hegemonia do capital ocidental está enfraquecendo. As contradições entre os imperialistas estão aumentando. Isso resultou em confrontos entre os EUA e a UE, em conflitos dentro da OTAN e em outras alianças.

No entanto, um sistema internacional justo ainda está longe de ser alcançado. Os antigos centros de poder estão se agarrando à dominância global com todas as suas forças. Para mantê-la, estão prontos para usar todo o arsenal de pressão política, financeira, informacional e militar.

Temos de reconhecer o fato de que nem todos os polos de influência modernos almejam uma ordem mundial igualitária. Frequentemente, os seus círculos governantes estão interessados apenas em redistribuir mercados e esferas de controle. Portanto, nós, representantes da esquerda e das forças populares e patrióticas, temos que compreender: uma simples mudança de líderes globais dentro da estrutura do capitalismo não libertará os trabalhadores da exploração. Somente o socialismo garante uma verdadeira alternativa.

Expandindo a caracterização do imperialismo feita por Lênin, o Partido Comunista da Federação da Rússia destaca uma série de características-chave da globalização. Primeiro, o domínio do capital financeiro sobre a produção industrial está aumentando. Os verdadeiros donos dos maiores ativos do mundo são gigantes capitalistas como BlackRock, Goldman Sachs e JPMorgan Chase. Seus recursos excedem as capacidades de alguns Estados.

Segundo, a economia global é construída sobre as trocas desiguais. Os países em desenvolvimento fornecem matérias-primas baratas e compram produtos acabados caros. A servidão por dívida está se intensificando. De acordo com a ONU, a dívida global se aproximou de US$ 100 trilhões. Quase metade da humanidade vive em países que gastam mais com o serviço da dívida do que com saúde e educação.

Terceiro, o modelo de divisão global do trabalho perpetua uma desigualdade social colossal. De acordo com estimativas da Oxfam, a riqueza combinada dos bilionários chegou a US$ 18,3 trilhões no final de 2025. Isso é o dobro do nível de 2020 e sete vezes o nível do ano 2000. No ano passado, o número de bilionários em todo o mundo pela primeira vez ultrapassou 3.000 pessoas. As 12 pessoas mais ricas do planeta detêm mais riqueza do que a riqueza combinada da metade mais pobre da população da Terra.

Quarto, a influência do capital transnacional sobre a política está crescendo dramaticamente. Grandes financistas e corporações determinam diretamente os rumos dos Estados. O governo dos EUA demonstra uma fusão cada vez mais estreita entre o poder e os grupos financeiros e industriais. Os dados da Oxfam ecoam literalmente as conclusões de Lênin sobre a relação entre monopólios e reacionarismo político.

A desigualdade econômica leva à erosão dos direitos e das liberdades políticas. O autoritarismo está em ascensão. “Os governos estão tomando decisões ruins para agradar a elite e os ricos, suprimindo os direitos e a indignação dos cidadãos, causados pelo aumento do custo de vida, que se tornou insustentável para muitos“, observa Amitabh Behar, diretor executivo da Oxfam.

Quinto, o direito internacional está sendo cada vez mais substituído por um sistema de “regras” que beneficia a oligarquia global. Os Estados-nação estão perdendo o controle sobre os processos econômicos. As grandes empresas estão usando as instituições internacionais como ferramenta para pressão. Declarações rituais sobre a “inviolabilidade da propriedade privada” não impedem o Ocidente de congelar e confiscar os ativos de outros países.

Sexto, a expansão da informação e da cultura tornou-se uma forma de agressão independente e altamente destrutiva. Padrões de consumo e comportamento estão sendo impostos por meio de plataformas de mídia globais, redes sociais e monopólios digitais. As tentativas de alguns Estados de proteger a sua soberania informacional são declaradas, em alto e bom som, como uma “violação da liberdade de expressão”.

Finalmente, a natureza parasitária do capital global está crescendo. Ele se apropria habilmente dos benefícios do progresso tecnológico. Uma parcela significativa da humanidade permanece na pobreza e na dependência. Ao mesmo tempo, a crise ambiental e a degradação espiritual estão aumentando. As relações sociais estão sendo desumanizadas. A tragédia do povo palestino e a reação dos estados ocidentais a ela se tornaram um símbolo significativo disso.

Mais uma vez, como no século passado, o capital está se apoiando cada vez mais em forças de extrema direita. Na Europa, partidos radicais de direita simpáticos a Hitler, Mussolini, Franco e Horthy estão ganhando força. Na América Latina, vários políticos estão justificando os crimes das ditaduras militares. As ações do amigo próximo de Donald Trump na Argentina, Javier Miley, tornaram-se símbolo da política radical de direita.

O público reacionário de hoje está unido por um anticomunismo agressivo, russofobia e um desejo por uma ditadura global. Essas forças estão preparadas para usar toda a força de seus exércitos e o chamado aparelho de Estado para afirmar sua dominância.

Os Estados Unidos percebem cada vez mais as enormes conquistas da China socialista como um desafio estratégico. Washington busca recuperar sua posição como o principal centro industrial do mundo. Para isso, está enfraquecendo a Europa, subordinando-a cada vez mais aos seus interesses. Isso naturalmente aprofunda as contradições entre os imperialistas.

Mas é preciso enfatizar: em geral, o capitalismo mantém uma alta capacidade de adaptação e sobrevivência. Além da força militar, ele se baseia no controle da informação e manipula a consciência pública. Amarga e ironicamente, a supressão de oponentes políticos está ocorrendo sob o pretexto de defender a democracia. Proibições de participação em eleições, censura reforçada, campanha de cancelamento da cultura russa — tudo isso se tornou parte da vida política ocidental.

O capital global não abandonou seus métodos antigos e comprovados. Diversas formas de neofascismo estão ressurgindo. O neonazismo ucraniano, que surgiu da ideologia sangrenta de Bandera, recebeu amplo apoio. As forças de extrema-direita ressurgiram em muitos países europeus.

A ascensão ao poder da equipe de Donald Trump nos Estados Unidos foi um evento marcante. Tendo conquistado a simpatia dos cidadãos simples com demagogia sofisticada e populismo, esse capitalista oligárquico está destruindo os remanescentes do “estado de bem-estar social”. Também está organizando intervenções por todo o mundo.

Ideólogos da “paz pela força” estão se voltando para os conceitos mais reacionários da era colonial. Um exemplo gritante disso foi o discurso do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique deste ano. Chamando a civilização ocidental de a maior da história, ele admirou suas conquistas. “Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente nunca parou de se expandir. Seus missionários, peregrinos, soldados e exploradores deixaram suas terras para cruzar os oceanos, colonizar novos continentes e construir vastos impérios ao redor do mundo“, declarou Rubio.

De acordo com o Secretário de Estado dos EUA, o surgimento do “império do mal” – a União Soviética – levou a “tempos sombrios”. É revelador que Rubio tenha identificado o ano de 1945 como o ponto de virada na hegemonia ocidental. Depois disso, declarou ele, “os grandes impérios ocidentais entraram em um período de declínio, acelerado por revoluções comunistas ateus e levantes anticolonialistas que mudaram o mundo e colocaram vastas extensões do mapa sob o controle da foice e do martelo vermelhos“.

Quero enfatizar que essa é a lógica dos imperialistas mais fanáticos. Segundo o chefe do Departamento de Estado dos EUA, o governo Trump está trabalhando para restaurar a antiga glória do Ocidente. Em aliança com os EUA, a Europa deve se libertar das “amarras” das regulamentações ambientais e das garantias sociais. Rubio afirmou ainda: “Juntos reconstruímos um continente despedaçado após duas guerras mundiais devastadoras…. O Ocidente livre uniu-se a dissidentes corajosos que lutavam contra a tirania no Leste para derrotar o comunismo soviético. Sob a liderança do presidente Trump, os Estados Unidos assumirão mais uma vez a tarefa de renovação e restauração“.

Tais aspirações representam uma ameaça direta a toda a humanidade!

O capitalismo está demonstrando sua incapacidade de resolver os principais problemas do nosso planeta. Além disso, em sua ânsia de manter o poder, está se tornando cada vez mais perigoso. A crise do capitalismo global está levando ao aumento da exploração, da conflitualidade e à ameaça de guerras em larga escala.

Diferentemente das eras anteriores, a situação no mundo mudou fundamentalmente. Neste estágio, a humanidade já possui tanto os recursos quanto as capacidades tecnológicas para superar a pobreza, a fome e a desigualdade extrema. Mas o capitalismo não quer isso. Ele transforma a riqueza colossal e as oportunidades extraordinárias em uma fonte de crescente agressão e degradação.

Nós — representantes de partidos e movimentos, associações e iniciativas públicas, acadêmicos e peritos — não temos o direito de ficar de braços cruzados. A nossa razão e a nossa consciência não nos permitem permanecer indiferentes ao que acontece neste mundo. Chegaram tempos muito especiais para a civilização humana. A preservação contínua do capitalismo não pode mais ser justificada.

A saída da crise, as soluções para os problemas globais e o desenvolvimento pacífico e bem-sucedido só são possíveis por meio da transição para o socialismo.

A criação de um novo mundo, livre dos ditames do capital global, está na agenda da humanidade. E isso não é algo que possa ser adiado para amanhã. A luta continua todos os dias — aqui e agora! Bem como os nossos parceiros de ideias em outros países, o Partido Comunista da Federação da Rússia trava a sua batalha política de forma persistente e consistente. O nosso foco é expor o imperialismo, o reacionarismo, o neocolonialismo, o neofascismo e o terrorismo de nível estatal.

Em 2023, propusemos levar esse trabalho a um novo patamar. Juntos com o Partido Comunista de Belarus, lançamos o 1º Fórum Internacional Antifascista, em Minsk. Representantes de 50 países participaram nele. Foi criado o Manifesto pela unidade dos povos do mundo, intitulado “Protejamos a Humanidade do Fascismo!”.

As avaliações e conclusões do Manifesto de Minsk receberam amplo apoio. Em abril de 2025, 164 delegações chegaram a Moscou para participar no 2º Fórum Internacional Antifascista. Elas representavam 91 países. Seis meses depois, realizamos o Fórum Internacional de Mídia Antifascista. Naquele Fórum discutimos questões de coordenação da política informacional das forças de esquerda.

As abordagens compartilhadas por nossos partidos e movimentos nos ajudam a nos engajar conjuntamente na luta pela paz. Nos solidarizamos com os povos que se tornaram vítimas da agressão. Exigimos o fim do genocídio do povo palestino. Juntos, dizemos: “Tirem as mãos de uma Cuba livre e da sua escolha histórica!” Insistimos na libertação imediata do presidente venezuelano da custódia nos EUA.

Ainda em janeiro, o Partido Comunista da Federação da Rússia criou o Comitê Público para a Libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores. Ele está trabalhando ativamente e expandindo suas atividades. Exigimos a liberdade de Eugenia Gutsul, na Moldávia, de Vardan Ghukasyan, na Armênia e de todos os presos políticos que sofrem pelos ideais de justiça e amizade entre os povos.

Este Fórum de hoje é mais uma etapa na luta contra a reação global. O imperialismo dissipou os últimos vestígios de sua fachada de pacificador. No nosso planeta de beleza magnífica, ele semeia pobreza terrível e terrorismo no nível estatal, guerra e morte. Nossa tarefa comum é expor corajosamente a essência das políticas do grande capital, unir as forças de esquerda, apresentar nossa alternativa e perseguir persistentemente os nossos objetivos.

Temos uma enorme responsabilidade. As forças progressistas precisam de táticas e estratégias comuns. Precisamos de um roteiro preciso para a luta contra o imperialismo e o neocolonialismo, o neofascismo e o terrorismo de Estado.

O caminho da luta será árduo. Devemos trilhá-lo e vencer! Esta é uma grande tarefa de proporções verdadeiramente históricas!

Sejamos dignos de nossa escolha ideológica!

Sejamos dignos de nossos grandes antecessores!

Juntos, avante rumo à conquista dos brilhantes ideais de paz e amizade entre
os povos, de justiça, progresso e socialismo!

24 de maio de 2026 – Moscou

Nota

1 – Referência a Stepan Bandera, colaboracionista ucraniano de Hitler, elevado a herói nacional pelo regime de Kiev (nota da Redação).

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