Luta dos povos

Um pedaço do Brasil na Festa do Avante!

Entre bandeiras vermelhas, livros, fotografias, mapas, conversas políticas, feijoada e caipirinha, o Brasil tem um endereço conhecido na Festa do Avante!. Há mais de duas décadas, o Partido Comunista do Brasil ocupa seu lugar no Espaço Internacional da Quinta da Atalaia e, ao longo desse tempo, construiu um ponto de encontro entre brasileiros, portugueses e militantes de diferentes partes do mundo.

Por Tiago Alves

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A presença brasileira é pequena diante das dimensões da Festa, mas ganhou identidade própria ao longo dos anos. Quem passa por ali encontra um pouco da política e da cultura do Brasil, conhece campanhas e lutas do país, conversa sobre a conjuntura e muitas vezes reencontra pessoas conhecidas de outras edições. Para quem retorna à Atalaia todos os anos, a barraca brasileira acabou se tornando também uma referência dentro da imensa geografia da Festa.

Desde 2007, essa presença ganhou também uma barraca de comidas e bebidas brasileiras, fazendo com que feijoada e caipirinha passassem a dividir espaço com política e cultura. Camisetas e canecas produzidas a cada edição também se transformaram em pequenos troféus para quem retorna à Festa e guarda lembranças da passagem pelo espaço brasileiro.

Na histórica 50ª edição, essa combinação entre política, cultura, memória e convivência ganhou novos elementos. Enquanto a agenda política avançava, a tenda brasileira permaneceu aberta como espaço de encontro, memória e formação. Um grande mapa da Coluna Prestes apresenta o percurso realizado pelo movimento pelo interior do Brasil e serve de ponto de partida para as explicações oferecidas pelos militantes a quem passa pelo local.

A exposição fotográfica “25 de Abril, 2024. A História se Repete como Festa!”, de Alexandre Santini, reúne registros das comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos. As imagens acompanham a ocupação das ruas de Lisboa por diferentes gerações e mostram como o 25 de Abril permanece vivo como memória histórica, celebração popular e afirmação dos valores conquistados pela Revolução.

Outro elemento dessa circulação de ideias é o Jornal Vermelho (clique para baixar o PDF: JORNALVERMELHO 2026), publicação especial produzida pelo PCdoB para os festivais da Alemanha e de Portugal. Depois de começar a ser distribuído no UZ-Friedenstage, em Berlim, o jornal chegou à Festa do Avante! com textos em português e inglês sobre a disputa política brasileira, soberania, multipolaridade, cultura e solidariedade internacional.

A literatura brasileira também ganhou espaço na tenda. Livros da Editora Anita Garibaldi levados pelo PCdoB despertaram grande interesse do público português, que parava diante da mesa para folhear as publicações, conhecer autores, conversar sobre a história e o pensamento político brasileiro e também adquirir os exemplares. Entre os títulos estavam Teoria das Relações Internacionais, de Ana Prestes e Diego Pautasso, Ideias e Rumos, de Renato Rabelo, Retalhos Vermelhos, Histórias Comunistas, de Augusto Buonicore, e Cem Anos dos Comunistas no Movimento Sindical, de Guiomar Prates e Nivaldo Santana. O interesse e a venda dos livros fizeram da mesa mais do que uma pequena livraria brasileira na Festa, transformando-a em outro ponto de intercâmbio, descoberta e conversa entre brasileiros e portugueses.

Pelo quarto ano consecutivo, as companheiras brasileiras do Pontos de Luta, coletivo de esquerda de Belo Horizonte, em Minas Gerais, que utiliza o bordado como linguagem política, também participaram do espaço de solidariedade da Festa. Durante dias, elas bordaram coletivamente a bandeira do Avante! e produziram marcadores de livros distribuídos ao público, com mensagens como “Lula Avante! 2026”, “Paz e Resistência” e “Diversidade é luta”. Feitos à mão e levados do Brasil para Portugal, os bordados transformam linhas e tecidos em mensagens de solidariedade, resistência e esperança e já se tornaram uma pequena tradição da presença brasileira na Festa.

Tudo isso acontece enquanto a barraca segue seu próprio ritmo. Durante os três dias, o cheiro da feijoada se mistura ao movimento do Espaço Internacional e a caipirinha completa uma combinação que há anos atrai portugueses, brasileiros e visitantes de outros países. Para alguns, é a oportunidade de experimentar sabores brasileiros. Para outros, é o reencontro com uma barraca conhecida, com pessoas que já encontraram em anos anteriores e com uma pequena tradição construída edição após edição.

Essa convivência ajuda a explicar por que a presença brasileira na Festa ultrapassou há muito a instalação de uma tenda partidária ou de uma barraca gastronômica. Ao longo de mais de duas décadas, relações políticas foram acompanhadas por amizades, reencontros e histórias pessoais. Há quem volte todos os anos, quem procure as novas camisetas e canecas, quem pare para saber o que está acontecendo no Brasil, quem compre um dos livros, leve um exemplar do Jornal Vermelho ou um marcador bordado e quem simplesmente se sente para comer, beber e conversar.

Naturalmente, a política brasileira atravessa essas conversas. Em 2026, a eleição de outubro e a disputa pela reeleição de Lula aparecem frequentemente quando alguém pergunta sobre o Brasil. Cuba, Palestina, a paz, a soberania e as diferentes lutas dos povos também estão presentes, afinal, basta olhar ao redor para perceber que o Espaço Internacional funciona como uma pequena geografia política do mundo, na qual cada barraca carrega um pouco da história, da cultura e das lutas de seu país.

A presença brasileira participa dessa geografia à sua maneira. A Coluna Prestes aparece ao lado das fotografias do 25 de Abril, livros brasileiros dividem espaço com o Jornal Vermelho e os marcadores bordados à mão, enquanto as conversas sobre o Brasil acontecem entre uma feijoada e uma caipirinha. Política, cultura, gastronomia, memória e solidariedade não aparecem como atividades separadas, mas como dimensões de uma mesma experiência.

É assim que, ao longo de mais de duas décadas, foi se construindo um pequeno pedaço do Brasil dentro da Festa do Avante!. Um espaço renovado a cada edição, feito não apenas de bandeiras, exposições, jornais, livros, comidas e bebidas, mas sobretudo das pessoas que chegam, voltam, conversam e estabelecem relações. É nesses encontros que a histórica amizade entre comunistas brasileiros e portugueses deixa de ser apenas uma relação entre partidos e ganha rostos, sotaques, sabores, lembranças e novos capítulos a cada Festa.

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