Súmula Internacional

Súmula Internacional 125: “Acordo entre Israel e resistência palestina é o fracasso do sionismo”

Palestinos comemoram em Gaza / Foto: AFP

Desde o dia 07 de outubro de 2023, o Estado de Israel assassinou 67.194 pessoas e feriu outras 169.890, sendo mulheres e crianças a maioria. Nesta quarta-feira (9), anunciou-se um acordo de cessar-fogo entre os sionistas e a resistência palestina. O historiador e vice-presidente do Instituto Brasil Palestina (IBRASPAL), Sayid Marcos Tenório, foi ouvido pela Súmula logo depois do anúncio.

SÚMULA – Sayid, qual a sua avaliação deste acordo?

Sayid Marcos Tenório – O acordo que será assinado hoje (09/10), sob a mediação dos Estados Unidos da América, o Catar, o Egito e a Turquia, entre a resistência palestina, tendo à frente o Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas, e o Estado terrorista de Israel, no meu modo de ver, sinaliza o fracasso e a derrota das políticas israelenses para a Palestina, porque Israel não conseguiu nenhuma vitória.

Se você recordar o que Netanyahu anunciou há dois anos atrás: que em poucas semanas eles iriam dobrar a resistência, iriam acabar com o Hamas, iriam trazer os prisioneiros de volta, tornariam Gaza um território para novos colonatos. Nenhum desses objetivos foi alcançado.

E o acordo que vai ser assinado hoje, para a implementação da primeira fase, é uma demonstração disso, porque serão libertados mais de 2 mil prisioneiros palestinos, incluindo 250 condenados à prisão perpétua, em troca dos 20 prisioneiros de guerra israelense vivos e os 28 corpos que serão entregues no decorrer da semana. Então isso é uma grande vitória.

A retirada parcial das forças israelenses é outra vitória da resistência, porque o Donald Trump tinha dito que as tropas israelenses estariam ali para ficar em definitivo. E por fim, que é um item desta primeira etapa, a entrada da ajuda humanitária. O povo de Gaza está há seis meses passando fome, a rigor, passando fome, com sede. Os hospitais totalmente destruídos, sem equipamentos médicos, sem insumos médicos, com muitos médicos mortos e desaparecidos.

Então, a entrada dessa ajuda e desses insumos vai proporcionar um novo fôlego da luta deste povo ancestral pela sua terra. E por fim, o retorno dos deslocados. Todos os palestinos voltarão para suas casas em Gaza, embora essas casas sejam apenas ruínas. Mas o retorno simbólico tem um grande significado, que prepara a segunda fase que inclui a reconstrução de Gaza e a criação de um comitê internacional para garantir a realização e a implementação das novas fases do acordo.

Então, penso que (o acordo) foi muito positivo para a resistência palestina, reforça a luta do povo palestino pelo seu Estado soberano e fica uma demonstração, um exemplo para o mundo, de que as lutas de libertação, além de serem legítimas segundo o direito internacional, são as formas mais eficazes para que o povo conquiste seus direitos. E a história tem muitos exemplos. O Vietnã, a Argélia, os nossos irmãos africanos, submetidos a séculos de colonialismo europeu, lutaram e se libertaram. América Latina, Cuba, hoje o povo da Venezuela que luta pela sua soberania. O povo brasileiro com suas passagens históricas também.

SÚMULA: Algumas fontes alegam que o Hamas as outras forças da resistência aceitaram entregar as armas. O que você sabe sobre isso?

Um dos pontos mais polêmicos do acordo de cessar-fogo naqueles 20 itens que o Donald Trump ofereceu e que foi em torno deles que foi realizado o acordo com as alterações oferecidas pela resistência palestina é quanto ao desarmamento do Hamas, da Jihad Islâmica, da Frente Popular Pela Libertação da Palestina, da Frente Democrática e dos outros grupos que compõem essa frente de resistência.

Hoje eu li os dirigentes do Hamas afirmando que a resistência não vai depor as armas imediatamente, isso será parte de um processo mais duradouro, longo, de negociações e que essas armas só serão entregues ao Estado palestino. E aí, quando eles dizem, “Estado palestino”, eles não estão se referindo à Autoridade Nacional Palestina, mas ao Estado palestino como tal, reconhecido pela maioria das nações, a ampla maioria das nações, o que ficou reforçado agora na Assembleia Geral das Nações Unidas com adesão de nações importantes como a França e o Reino Unido.

Ou seja, dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, quatro reconhecem o Estado da Palestina, menos os Estados Unidos. França, Reino Unido, China e Rússia reconhecem o Estado palestino. E há uma pressão para o estabelecimento desse Estado de maneira formal, reconhecido e participante como membro permanente das Nações Unidas. Então será para esse Estado que a resistência tem dito que entregará suas armas e não neste momento, porque Israel já demonstrou ao longo desses 77 anos que não respeita os acordos e que sempre avança no sentido de ampliar o seu projeto colonial e de tentativas de limpeza étnica e de extermínio do povo palestino.

SÚMULA: Quando você mencionou a retirada da forças sionistas de Gaza, você usou a expressão “retirada parcial”. Israel não sairá totalmente de Gaza?

É o seguinte, eles estabeleceram três linhas de desocupação. Tem uma linha que começa a valer hoje (quarta-feira, 09/10), eles fizeram um mapa, aí hoje eles vão recuar até esta linha que passa da fronteira de Gaza e vai até a cidade de Khan Yunes na direção daquilo que eles estabelecem como a fronteira de Gaza com a ocupação. Uma segunda faixa é já beirando a fronteira real de Gaza e a terceira é uma área que eles pretendem ficar como área de segurança, que é ali margeando a fronteira.

Essa é outra questão que a resistência está negociando, que é a retirada total das forças israelenses do território de Gaza. Então isso é parte do acordo, aí eu falo que é uma retirada parcial nesses termos.

Sayid: “A resistência só entregará suas armas para o Estado Palestino, pois Israel já demonstrou ao longo desses 77 anos que não respeita os acordos e que sempre avança no sentido de ampliar o seu projeto colonial e de tentativas de limpeza étnica e de extermínio do povo palestino”

SÚMULA: Quais são os próximos passos?

Depois da assinatura deste acordo, 24 horas depois (no final desta quinta-feira, 10), Israel teria que recuar todas as suas tropas para esta linha amarela que mencionei na resposta anterior, e 72 horas depois começa a troca de prisioneiros de guerra e os prisioneiros palestinos, o que deve acontecer por volta da segunda-feira. E está prevista uma visita de Donald Trump a Israel no domingo, e é provável, segundo o noticiário, que ele possa discursar no Knesset.

Então Israel vai libertar 1950 prisioneiros a partir da segunda-feira, desses aí 1.700 foram sequestrados de Gaza, e tem 250 prisioneiros palestinos cumprindo prisão perpétua. Esses são os números do cronograma estabelecido pela ONU.

Como se sabe, Euclides da Cunha, ao acompanhar a expedição militar contra Canudos, encantou-se com um personagem que passou a cultuar como um herói: o vaqueiro nordestino. Neste trecho, em seu estilo impecável, Euclides exalta a valentia do vaqueiro sertanejo em meio ao estouro de uma boiada:

E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres (…) E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalanche viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas — enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo — o vaqueiro!

Euclides de Cunha – Os Sertões

Por Wevergton Brito Lima

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