Súmula Internacional

Súmula Internacional 134: O que disse o chanceler chinês Wang Yi e o que disse o jornal O Globo

Neste último domingo, 8 de março, o principal diplomata da República Popular da China, Wang Yi deu uma longa entrevista coletiva em Pequim, onde durante 80 minutos respondeu a 21 perguntas de representantes de órgãos da mídia nacional e estrangeira. A entrevista aconteceu à margem da Quarta Sessão do 14.º Congresso Nacional do Povo, no Centro de Mídia

O jornal O Globo fez uma matéria sobre o acontecimento com o seguinte título e chamada: “O mundo G2 visto da China – Enquanto se prepara para visita de Trump no fim do mês, Pequim indica que defesa de parceiros como Irã não é prioridade”.

Quem lê o texto de O Globo e em seguida lê a íntegra da entrevista de Wang Yi fica impressionado com a distância abissal entre o que disse o estadista e o que “interpretou” o “analista”.

O link da matéria de O Globo, assinada por Marcelo Ninio, está aqui e a íntegra, em português, da entrevista de Wang Yi pode ser lida aqui.

O que o artigo global tenta passar é a imagem de uma China mesquinha, preocupada apenas com seus interesses e que subalterniza ou ignora qualquer outra coisa além disso.

Isso contamina muita gente, inclusive “de esquerda”.

O termo G2, para se referir à relação EUA – China, foi citado pelo correspondente da NBC que perguntou a Wang Yi se a China aceitaria “um formato ‘G2’ como um marco para China e EUA abordarem desafios globais?”. Wang Yi começou sua resposta da seguinte forma:

Sem dúvida, China e Estados Unidos têm um impacto significativo no mundo, mas não devemos esquecer que há mais de 190 países em nosso planeta. A história mundial sempre foi escrita por muitos países juntos, e o futuro da humanidade será forjado através dos esforços coletivos de todas as nações. A diversidade é a natureza inerente da sociedade humana, e a multipolaridade é o que o cenário internacional deveria parecer.

Esta peremptória defesa da multipolaridade, no entanto, foi “interpretada” por Marcelo Ninio como mera manobra tática para enganar os incautos.

Na verdade, a defesa firme e decidida de Wang Yi da multipolaridade e a denúncia dos que tentam contorná-la foi a tônica de toda a entrevista.

Antes de começar as perguntas, o chanceler chinês fez um pequeno discurso de abertura e disse, entre outras coisas, depois de saudar as mulheres pelo Dia Internacional da Mulher: “a diplomacia da China salvaguarda firmemente a soberania nacional, a segurança e os interesses de desenvolvimento, defende firmemente o Estado de Direito internacional, a equidade e a justiça, se opõe firmemente a todos os atos unilaterais, à política de poder e ao bullying, observa e cumpre firmemente nossas obrigações internacionais, e se posiciona firmemente no lado certo da história (…) Estamos prontos para trabalhar com todos os países que compartilham os mesmos ideais para perseguir o nobre objetivo de construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, e escrever novos capítulos de paz, desenvolvimento e cooperação de benefício mútuo para a nossa época. Com isso, estou pronto para responder às suas perguntas”.

Separei alguns trechos de respostas significativas de Wang Yi e ao final faço um último comentário.

Respondendo sobre a parceria sino-russa ter atingido tal grau de solidez e como ela pode ser um anteparo às “tentativas de remodelar o direito internacional e as regras do comércio global”:

Penso que a razão principal (de ter atingido tal solidez) é que a parceria estratégica de coordenação China-Rússia foi baseada em igualdade, respeito e benefício mútuo desde o primeiro dia. Ela incorpora a essência de um novo tipo de relações internacionais. Representa a direção de um novo tipo de relações entre grandes potências (…) Oitenta anos atrás, China e Rússia contribuíram juntas para a construção da ordem pós-guerra. Hoje, 80 anos depois, China e Rússia juntas adicionarão impulso ao advento de um mundo multipolar.”

Um representante da TV americana perguntou sobre a situação no Irã. Wang Yi deu uma extensa resposta, elencando inclusive 5 princípios fundamentais para a saída da crise. Destaco os três primeiros e um trecho do quinto:

Primeiro, respeitar a soberania nacional. A soberania é a pedra angular da ordem internacional atual. Acreditamos que a soberania, segurança e integridade territorial do Irã e de todos os países da região do Golfo devem ser respeitadas e não devem ser violadas.

Segundo, rejeitar o abuso da força. A força não faz o direito. A lei da selva não deve retornar e governar o mundo. O uso deliberado da força não comprova a força de ninguém. (grifo do editor) Os civis são inocentes e não devem ser vitimizados.

Terceiro, não interferência nos assuntos internos. O povo do Oriente Médio é o verdadeiro mestre desta região. Os assuntos do Oriente Médio devem ser determinados independentemente pelos países regionais. Tramar revoluções coloridas ou buscar mudança de regime não encontrará apoio popular.”

Trecho do quinto princípio: “Outro antigo ditado chinês diz que quando a benevolência e a justiça não são praticadas, a posição de força muda”. (grifo do editor).

Uma das perguntas versou sobre a proposta da Iniciativa Global de Governança, feita pela China e sua ampla aceitação:

Acredito que a chave reside nos cinco principais princípios defendidos pela IGG, a saber, igualdade soberana, Estado de Direito internacional, multilateralismo, uma abordagem centrada nas pessoas e ações reais. Eles atendem às expectativas comuns da comunidade internacional e refletem as aspirações compartilhadas das pessoas de todos os países.

A mensagem mais explícita da IGG é que a posição de liderança da ONU deve ser mantida, não desafiada; o papel central da ONU deve ser fortalecido, não enfraquecido. A ONU não é perfeita, mas sem a ONU, o mundo seria apenas pior. Criar estruturas paralelas fora da ONU ou, pior ainda, reunir vários blocos e círculos exclusivos é impopular e insustentável. (grifo do editor)

 (…) Em particular, (a ONU) deve aprimorar a voz e representação dos países do Sul Global, e refletir melhor as demandas legítimas dos países em desenvolvimento. O objetivo é construir um sistema de governança global mais justo e equitativo”.

Trecho da resposta a uma pergunta da CNN sobre expectativas quanto às relações sino-americanas:

Este ano é um ‘grande ano’ para as relações China-EUA. A agenda de intercâmbios de alto nível já está sobre a mesa. O que os dois lados precisam fazer agora é iniciar preparações completas de acordo, criar um ambiente adequado, gerenciar os riscos que existem, e remover perturbações desnecessárias. A China está sempre comprometida e aberta. É fundamental que o lado americano trabalhe na mesma direção. (grifo do editor) Acredito que quando os dois lados se tratarem com sinceridade e boa-fé (grifo do editor), seremos capazes de alongar a lista de cooperação e encurtar a lista de problemas”.

Logo em seguida a esta resposta dada à CNN, um jornalista pergunta sobre as relações da China com as nações vizinhas da Ásia. Trecho da resposta:

Se a China agisse como algumas potências tradicionais empenhadas em delimitar esferas de influência, provocando rivalidades internas e até mesmo adotando uma abordagem de ‘empobrecer o vizinho’, a Ásia ainda seria tão estável quanto é hoje?” (De qual potência tradicional será que ele está falando? E-mails à redação).

Sobre o papel do Sul Global na luta pelo mundo multipolar:

Neste momento, o hegemonismo e a política de poder estão se afirmando e desferindo um golpe pesado na ordem internacional. Os países do Sul Global devem aumentar a comunicação e coordenação, defender conjuntamente nossos direitos e interesses legítimos, e trabalhar juntos para expandir o espaço para desenvolvimento independente (…) O coração da China está com o Sul Global; a raiz da China está no Sul Global. Estamos prontos para unir as mãos com outros países do Sul Global para caminhar em direção à modernização e avançar a construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”.

Sobre a questão palestina:

Há apenas uma solução equitativa e amplamente reconhecida para a questão palestina, que é a solução de dois Estados. Qualquer outro arranjo ou novo mecanismo deve reforçar — em vez de prejudicar — a solução de dois Estados (…) a China continuará apoiando a justa causa da Palestina de perseguir direitos nacionais legítimos, e facilitará esforços internacionais para restaurar a justiça ao povo palestino”.

Outro trecho da resposta à NBC em relação ao tal G2:

Construir um mundo multipolar igual e ordenado deve ser a responsabilidade compartilhada de todos os países. As grandes potências, com mais recursos e maior capacidade, devem demonstrar maior visão e compromisso, e tomar a liderança em seguir regras, cumprir promessas e defender o Estado de Direito” (nota-se aí, alguma ironia?).

Respondendo ao jornalista do Brasil de Fato sobre os esforços dos EUA de afastarem a América Latina e o Caribe de parcerias com a China:

Roteiros antigos do século XIX não devem ser encenados no palco internacional do século XXI. Os recursos da América Latina e do Caribe (ALC) pertencem ao povo de lá, o caminho dos países da ALC deve ser escolhido por seu povo, e a escolha de amigos é uma decisão apenas dos países da ALC”.

Em resposta a um jornalista que perguntou sobre a volta do protecionismo em escala global:

A economia mundial está enfrentando ventos contrários, e a globalização está sofrendo uma reação. Um certo país está erguendo barreiras tarifárias e promovendo desacoplamento econômico e tecnológico (a qual país ele se refere? Vou perguntar ao Marcelo Ninio) . Continuando: “Isto não é diferente de usar lenha para apagar um fogo — você apenas se queimará. O Presidente Xi Jinping lembrou a todos que é impossível canalizar o vasto oceano da economia global de volta para lagos isolados — vai contra a maré da história. Perseguir protecionismo é semelhante a se trancar em um quarto escuro; pode manter vento e chuva afastados, mas também bloqueia luz e ar (…) o Presidente Xi Jinping pediu a promoção de uma globalização econômica que seja universalmente benéfica e inclusiva. O objetivo é tornar o bolo da globalização econômica maior e, mais importante, dividi-lo de forma mais justa. O princípio é não deixar nenhum país para trás, e deter o alargamento da lacuna de riqueza”.

Comentário final

Dizer, como se fosse uma acusação, que a China defende em primeiro lugar seus próprios interesses, é o mesmo que reprovar um enxadrista por mover suas peças buscando a vitória — como se houvesse outra maneira de se jogar xadrez. Além disso, não se pode jogar um campeonato justo de xadrez se um dos jogadores chuta o tabuleiro para o alto e começa a definir regras próprias ao sabor de seu desejo.

É claro que qualquer diplomacia, de qualquer país do mundo – que não esteja dominado por traidores – defende, em primeiro lugar, os interesses de sua pátria e move suas peças neste sentido.

A diferença é que a China é anti-imperialista. Sofreu e sangrou muito nas mãos de colonialistas e imperialistas. Por vários motivos, inclusive ideológicos, entende não ser possível construir um mundo estável e pacífico com assimetrias frutos de subordinações que busquem condenar a imensidão dos povos a um subdesenvolvimento eterno em benefício de uma elite diminuta de países.

Como se percebe facilmente ao ler as respostas da entrevista, Wang Yi deixa claro que a China une refinada linguagem diplomática e habilidade tática com firmeza de princípios. Assim, ele faz a defesa de novas relações internacionais sem hegemonismos e ingerências, faz a denúncia contundente dos que atentam e agridem a Carta das Nações Unidas e aponta inclusive para a perda de condição da capacidade de liderança de um país que busca se legitimar apenas pela força.

Será que ninguém sabe quem é o país alvo de todas essas críticas e acusações?

Na linguagem diplomática, especialmente quando se trata da China, é preciso atenção aos detalhes. Notem que Wang Yi, em seu discurso de abertura, disse que a China está pronta para trabalhar com todos os países “que compartilham os mesmos ideais” de construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade.

Os dirigentes chineses repetem à exaustão que não desejam o confronto, mas igualmente não fingem desconhecer que não são todos os países “que compartilham os mesmos ideais” e, sendo assim, o confronto é, de certa forma, inevitável e já está inclusive em pleno desenvolvimento. E, melhor do que a maioria dos povos, a China sabe que o imperialismo, ao fim e ao cabo, só respeita a força.

Em minha opinião, foi com o firme propósito de enviar um recado com este conteúdo aos “distraídos” que, não por coincidência, organizou-se o seguinte: próximo de onde estava sendo realizada a coletiva de Wang Yi, o Museu Militar de Pequim promoveu, ao mesmo tempo, com grande sucesso de público, uma exibição da participação da China na Guerra da Coreia, que marcou a primeira vez em que chineses e estadunidenses se confrontaram no campo de batalha, com clara derrota militar dos EUA.

Esse fato foi até registrado pelo jornalista de O Globo, que no entanto já havia advertido aos seus leitores que “no imaginário chinês, os EUA evocam sentimentos ambíguos, entre a necessidade de resistência e o apelo irresistível da cultura americana (grifo do editor)”.

O problema da mídia hegemônica tupiniquim (e esse é apenas um dos problemas) é que a subserviência à visão de mundo vinda de Whashington os obriga a contorcionismos constrangedores que, cada vez mais, corrói a credibilidade que ainda lhe resta e que já não é tanta assim como já foi no passado. Neste caso, ainda bem, embora muitas vezes este desencanto com a mídia convencional deságue no esgoto da mídia fascista e seu arsenal de sandices.

Encerro recomendando de novo a leitura na íntegra da entrevista coletiva em português, traduzida diretamente da versão oficial em inglês da página do Ministério de Relações Exteriores da China. O link está divulgado no início da matéria.

ENGELS SOBRE A PEQUENA BURGUESIA “REVOLUCIONÁRIA” : “Esta classe (…) tinha mostrado uma fachada mais ousada, tinha ameaçado muito frequentemente com uma resistência armada, era pródiga nas suas promessas de sacrificar o sangue e a existência na luta pela liberdade; mas já tinha dado muitas provas de que no dia do perigo não estava em parte nenhuma e de que nunca se sentira mais confortável do que no dia a seguir a uma derrota decisiva, quando, estando tudo perdido, tinha ao menos a consolação de saber que, de uma maneira ou de outra, o assunto estava resolvido.”

A pequena burguesia, grande em jactância, é muito impotente para a ação e muito tímida em arriscar o que quer que seja. O caráter mesquinho das suas transações comerciais e das suas operações de crédito tende eminentemente a impregnar o seu caráter de uma falta de energia e de espírito de iniciativa; é, então, de esperar que qualidades semelhantes marquem a sua carreira política.

Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, 1852

Por Wevergton Brito Lima

 

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