A ofensiva de Modi contra os comunistas na Índia
O governo ultraconservador do primeiro-ministro Narendra Modi promove uma ofensiva contra os comunistas do Partido Comunista da Índia (Marxista), o PCI(M), a maior organização de esquerda do país e uma das poucas siglas reconhecidamente presentes em todo o imenso território indiano.
Por Wevergton Brito Lima, editor do i21
Encoberto sob o discurso de combate à corrupção, o governo central da Índia instrumentalizou o aparelho estatal para tentar calar as vozes mais combativas do povo indiano.
Sob Modi, a “Diretoria de Fiscalização” (DF), diretamente ligada ao poder executivo, abriu mais de 4.400 investigações contra oposicionistas, o que representa 95% de todos os casos conduzidos pelo órgão.
Este método faz parte de uma estratégia sistemática. Em Bengala Ocidental, governada pelo PCI(M) entre 1977 e 2011, a DF realizou mais de 20 operações nos dois meses anteriores às eleições de abril de 2026, visando líderes da oposição. Simultaneamente, 9,1 milhões de eleitores foram excluídos das listas eleitorais, afetando 3,11 milhões de muçulmanos. O Partido Bharatiya Janata (BJP), de Modi, venceu as eleições no estado, o que nunca havia ocorrido antes.
Em maio deste ano, o PCI(M) foi derrotado eleitoralmente em Kerala, estado que dirigia há uma década. O vencedor foi igualmente o BJP. Poucos dias depois, em 27 de maio, a Diretoria de Fiscalização realizou buscas na residência de Pinarayi Vijayan, ex-ministro-chefe de Kerala e membro do Secretariado do Partido.
A ação foi um “ato de vingança politicamente motivado”, como denunciou o Secretário-Geral do Partido, M.A. Baby. O pretexto utilizado foi o chamado “caso Exalogic”, investigação na qual tribunais indianos já concluíram que Vijayan não possui qualquer envolvimento.
O PCI(M) reagiu imediatamente e organizou, sob a liderança de seu secretário-geral, um protesto em frente à sede da DF, em Nova Delhi. A resposta do Estado foi a repressão brutal: a polícia deteve mais de cem manifestantes, incluindo a líder feminista Brinda Karat e os membros do Secretariado Ashok Dhawale, Mariam Dhawale e Vijoo Krishnan.
M.A. Baby convocou o partido a mobilizar “fortes protestos em todo o país” contra a perseguição seletiva de líderes da oposição e os ataques aos direitos democráticos.
O que ocorre hoje na Índia não é um fenômeno isolado, mas a expressão local de uma ofensiva global contra as conquistas democráticas populares, uma receita de perseguição política e manipulação judicial que a América Latina, infelizmente, conhece em seus mínimos detalhes.

Na sua página oficial, o PCI (M) afirma que o partido “está comprometido em trabalhar para o estabelecimento da democracia popular e da transformação socialista através da unidade revolucionária de todas as forças patrióticas e democráticas com a aliança operário- camponesa como seu núcleo”
Ao tentar asfixiar o PCI(M) por meio da força bruta e de inquéritos fabricados, o governo Modi demonstra que desconhece a própria história do povo que governa. A trajetória dos comunistas indianos não foi escrita nos gabinetes refrigerados de Nova Delhi, mas na poeira das estradas, na resistência camponesa, nas greves gerais e na defesa intransigente dos setores marginalizados da sociedade.
O apelo de M.A. Baby por protestos nacionais enfatiza a resiliência histórica do movimento comunista indiano, destacando que a força do PCI(M) reside na sua inserção popular e capilaridade social, elementos que a repressão institucional e policial é incapaz de aniquilar.
