Súmula Internacional 126: Uma voz do Nepal – “O que houve foi uma conspiração reacionária doméstica e internacional”
Os acontecimentos sangrentos que sacudiram o Nepal, no início de setembro, causando a queda do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli e do governo liderado pelo Partido Comunista do Nepal (Unificado Marxista-Leninista), tiveram ampla repercussão no Brasil.
Muitos “especialistas” (nenhum deles do Nepal) foram ouvidos e um diagnóstico quase consensual surgiu: boa parte da culpa dos acontecimentos, senão a culpa central, é do PCN (UML) e sua “burocracia neoliberal”.
Esse diagnóstico – baseado, no fundo, no velho esquematismo neotrotskista, que atribui tudo à “traição da direção” – ignora a complexa realidade de um país que há apenas 17 anos derrotou uma monarquia feudal, somente há 10 anos tem uma Constituição democrática e dá os primeiros passos em consolidar sua institucionalidade, em meio a uma realidade internacional turbulenta e ameaçadora.
A Súmula Internacional entrevistou, com exclusividade no Brasil, Rajan Bhattarai, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Londres, doutor em RI pela Universidade Jawaharlal Nehru (JNU), de Nova Délhi, membro do Comitê Central Permanente do PCN (UML), já tendo chefiado o Departamento de Relações Internacionais do Partido, sendo atualmente encarregado da Província de Bagmati — uma das sete províncias do Nepal — o que também inclui a capital, Katmandu.
O camarada Rajan Bhattarai denuncia o atual governo nepalês como ilegítimo e, dirigindo-se ao povo brasileiro, diz: “Forças reacionárias em todo o mundo estão tentando minar movimentos progressistas e pró-classe operária. Observamos como governos de esquerda, incluindo no Brasil, estão sendo alvejados através de questões fabricadas. Da mesma forma, nossa soberania e independência também enfrentam interferência externa. Devemos, portanto, fortalecer a solidariedade entre as forças progressistas globalmente e apoiar as lutas uns dos outros de acordo com nossos respectivos contextos nacionais”.
Leia, abaixo, a íntegra da entrevista.
Súmula Internacional: Desde 9 de setembro, quando o Primeiro-Ministro K. . Sharma Oli, líder do Partido Comunista do Nepal (UML), renunciou, quais foram os principais desenvolvimentos políticos?
Rajan Bhattarai – Após a renúncia do Primeiro-Ministro K. P. Sharma Oli, um novo governo foi formado sob a liderança da Sra. Sushila Karki, ex-Presidente da Suprema Corte do Nepal. Por sua recomendação, o Parlamento eleito (Câmara dos Representantes) foi dissolvido e uma data para novas eleições — 5 de março de 2026 — foi anunciada. O governo também estabeleceu uma Comissão de Investigação para examinar os incidentes de 8 e 9 de setembro, presidida por um ex-juiz do Tribunal Superior que é amplamente considerado uma figura controversa devido aos seus papéis anteriores.
No entanto, a formação de um governo sob a liderança de uma ex-Presidente da Suprema Corte é inconsistente com nossas disposições constitucionais. A Constituição estabelece claramente que o Primeiro-Ministro deve ser membro da Câmara dos Representantes e que um Presidente da Suprema Corte não pode ocupar qualquer cargo político após a aposentadoria. Portanto, nosso partido considera que este governo é inconstitucional.
Súmula Internacional: Uma líder sindical do Nepal, entrevistada por nós, afirmou que interesses políticos e geopolíticos parecem ter manipulado e mobilizado jovens (a chamada geração Z) para os protestos, transformando uma questão legal em uma crise nacional. Você concorda com essa avaliação?
Rajan Bhattarai – Sim, concordo com essa avaliação. O Nepal está situado entre dois gigantes asiáticos — a China ao norte e a Índia ao sul, leste e oeste. Nossa fronteira com a Índia toca os estados populosos mas economicamente desfavorecidos de Bihar, Uttar Pradesh e Bengala Ocidental, enquanto nossa fronteira norte conecta-se com a Região Autônoma do Tibete na China, uma área altamente sensível.
Dada essa geografia, ambos os nossos vizinhos têm profundas preocupações sobre os desenvolvimentos no Nepal, pois os eventos aqui podem ter efeitos transfronteiriços. Com a crescente importância global tanto da China quanto da Índia, a posição geoestratégica do Nepal também se tornou cada vez mais significativa, atraindo a atenção de terceiras potências que buscam expandir sua influência e conter a China — e talvez a Índia no futuro.
Súmula Internacional: Você pode apontar mais alguns elementos sobre essa interferência externa?
Rajan Bhattarai – Existem muitos elementos. De acordo com uma reportagem do jornal indiano The Sunday Guardian de 5 de outubro, documentos internos do Instituto Republicano Internacional (IRI) dos Estados Unidos revelam que os EUA financiaram e orquestraram secretamente um plano de mobilização política de jovens no Nepal. O objetivo era promover reformas de governança alinhadas aos interesses estratégicos dos EUA e diminuir a influência da China e da Índia no Nepal.
O plano, supostamente chamado de “Liderança Jovem: Política Transparente” (Yuva Netritwa: Paradarshi Niti), foi concebido e implementado pelo IRI com financiamento do National Endowment for Democracy (NED) dos EUA, no valor de US$ 350.000. Embora ostensivamente dedicado a aumentar a participação política entre os jovens nepaleses, promover a “transparência” na governança e abordar as preocupações da juventude, o verdadeiro objetivo do plano era cultivar líderes juvenis pró-EUA no Nepal e treiná-los para exercer pressão sobre os tomadores de decisão, neutralizando assim a influência da China e da Índia no país.
Os documentos detalharam os pormenores operacionais do plano de julho de 2021 a junho de 2022. Os componentes centrais incluíam treinamento político para jovens de 18 a 35 anos, ensinando estratégias e habilidades de protesto, como o uso de mídias digitais para “amplificar suas vozes”. Além disso, os EUA contrataram a “Solutions Consultant Pvt. Ltd.” no Nepal para conduzir pesquisas sobre a participação política dos jovens, proibindo explicitamente o uso de equipamentos de empresas chinesas como Huawei e ZTE no estudo.
Os documentos também observaram que o plano se baseou na experiência bem-sucedida do projeto “Academia de Líderes Emergentes” (ELA) do IRI, implementado anteriormente em países como o Sri Lanka, com o objetivo de influenciar a liderança política.
Uma investigação da empresa israelense de ciberinteligência “Cyabra” também sugeriu que os recentes protestos da “Geração Z” no Nepal podem ter sido manipulados externamente, com aproximadamente 34% do discurso relacionado aos protestos nas redes sociais controlado por contas falsas.
Súmula Internacional: Alguns críticos argumentam que o governo liderado pelos comunistas do PCN (UML) adotou políticas neoliberais, falhou em implementar reformas estruturais e permitiu a corrupção, levando ao descontentamento público. Como você vê essas críticas?
Rajan Bhattarai – Essas são críticas genéricas e frequentemente desinformadas. Sem compreender o equilíbrio político único e o contexto do Nepal, tais julgamentos são incompletos. Desde a década de 1960, durante a luta democrática contra a monarquia absoluta, o Partido Comunista e o Congresso Nepalês (um partido centrista) frequentemente trabalharam juntos pela democracia. Nos opusemos conjuntamente à insurgência maoísta e trouxemos os maoístas para o processo de paz, eventualmente redigindo e promulgando a constituição atual por meio da Assembleia Constituinte em 2015.
Para proteger a democracia, comunistas e o Congresso têm cooperado apesar das diferenças nas orientações econômicas, sociais, culturais e de política externa. No entanto, forças antidemocráticas e monarquistas continuam tentando retornar, então a unidade democrática permanece essencial.
No ano passado, o Partido Comunista do Nepal (UML) formou um governo de coalizão sob o comando do presidente do nosso partido, já que nenhum partido detinha maioria na Câmara de 275 membros. O UML tinha 79 assentos, o Congresso Nepalês 89, e os maoístas 32, e o restante foi para outros partidos menores. Como são necessários 138 assentos para maioria, a formação de coalizões era necessária.
Há quatorze meses, formamos uma coalizão com o Congresso Nepalês após as mudanças oportunistas de aliança dos maoístas desestabilizarem governos anteriores. Embora tenhamos tentado abordar questões importantes, a política de coalizão limitou o progresso. A corrupção permanece um desafio, mas nosso governo fez fortes compromissos para combatê-la — apresentando processos contra vários ministros atuais e ex-ministros, alguns dos quais estão cumprindo penas de prisão.
Erradicar a corrupção leva tempo, reforma legal, tecnologia e compromisso sustentado da liderança. Apesar de nossos esforços, atores nacionais e internacionais manipularam essas questões e exploraram os sentimentos dos jovens para seus interesses particulares.
Economicamente, introduzimos medidas progressistas como pensões universais, seguridade social para idosos e mulheres solteiras, educação gratuita até o 12º ano, assistência médica gratuita e apoio financeiro para famílias de baixa renda, além de muitos outros programas pró-povo. Dada a economia pequena e em desenvolvimento do Nepal, essas foram grandes iniciativas em favor do proletariado. Nosso partido foi pioneiro no conceito de bem-estar social no Nepal.
Súmula Internacional: O Partido Comunista do Nepal (UML) emitiu alguma orientação ou avaliação dos eventos recentes?
Rajan Bhattarai – Sim, emitimos. Como mencionei anteriormente, forças reacionárias — tanto domésticas quanto internacionais — conspiraram contra nosso partido e liderança. Forças de direita nunca quiseram nosso partido no governo e tentaram repetidamente nos destruir. Desta vez, até elementos do chamado “Estado profundo” e certas instituições estatais, incluindo segmentos das forças de segurança, agiram de forma suspeita.
Em 8 de setembro, o pessoal de segurança abriu fogo contra manifestantes sem autorização do Primeiro-Ministro ou dos ministros relevantes. No entanto, em 9 de setembro, eles recuaram completamente, permitindo que manifestantes incendiassem o edifício do Parlamento, o Gabinete do Primeiro-Ministro, a Suprema Corte, o Palácio Presidencial e as casas de líderes seniores tanto do UML quanto do Congresso Nepalês. Tudo isso ocorreu após a renúncia do Primeiro-Ministro Oli.
Nosso partido declarou que isso foi um ataque à democracia e a um governo democraticamente eleito. Convocaremos reuniões internas, incluindo o Comitê Central, para avaliar a situação e traçar planos de ação futuros. A base e os quadros do nosso partido permanecem unidos e determinados a lutar contra essas conspirações nacionais e internacionais e a restaurar a ordem constitucional.
Súmula Internacional: O ex-Primeiro-Ministro Camarada K. P. Sharma Oli permanece como presidente do PCN (UML)? Onde ele está agora?
Rajan Bhattarai – Sim, ele continua a servir como nosso Presidente do Partido. Ele está em Katmandu, realizando reuniões com líderes partidários, quadros e membros, e também participando de vários eventos políticos e sociais.
Súmula Internacional: O PCN (UML) e o Partido Comunista do Nepal (Maoísta), liderado por Pushpa Kamal Dahal (conhecido como camarada Prachanda), foram aliados e chegaram a se fundir em um só partido. Que papel Prachanda desempenhou na atual crise política?
Rajan Bhattarai – O Partido Comunista do Nepal (Maoísta) travou uma rebelião armada de 1996 a 2006, durante a qual quase 500 de nossos líderes e quadros foram mortos. Apesar dessas experiências dolorosas, iniciamos conversações de paz e assinamos o Acordo de Paz Abrangente em 2006, trazendo os maoístas para a política convencional.
Na primeira eleição da Assembleia Constituinte, os maoístas se tornaram o maior partido e formaram um governo sob a liderança de Prachanda, mas ele falhou em entregar uma nova constituição e colapsou. Na segunda eleição (2014), o Congresso Nepalês emergiu em primeiro, o UML em segundo, e os maoístas em terceiro com significativamente menos assentos.
Em 2018, nossos dois partidos se uniram para formar o Partido Comunista do Nepal (PCN), mas a unidade foi de curta duração. Prachanda, junto com alguns líderes oportunistas ex-UML, procurou dominar o partido unificado e eventualmente se aliou ao Congresso Nepalês para derrubar o governo liderado pelo Camarada K. P. Sharma Oli. A Suprema Corte posteriormente anulou a unificação devido a algumas razões técnicas, os maoístas decidiram dividir o PCN e o PCN (UML) foi restabelecido em 2022.
Na crise atual, embora a liderança maoísta não tenha feito nenhuma declaração oficial, muitos de seus líderes locais e quadros participaram da queima de edifícios governamentais, casas particulares e protestos violentos e atos de vandalismo, conforme confirmado por evidências em vídeo. Eles agora afirmam que participarão das próximas eleições parlamentares em 5 de março de 2026 e culparam o governo liderado pelo UML pela situação, sem reconhecer a natureza inconstitucional da nova administração.
Súmula Internacional: Que papel o proletariado nepalês desempenhou nos protestos recentes?
Rajan Bhattarai – A maior organização de trabalhadores no Nepal, a Federação Geral dos Sindicatos Nepaleses (GEFONT), é ligada ao nosso partido. Seus escritórios também foram atacados por anarquistas e vândalos durante os distúrbios. A maioria da classe trabalhadora do Nepal se opõe fortemente a tais atos violentos. A GEFONT está agora focada em reorganizar e reeducar seus membros à luz desses desenvolvimentos.
Súmula Internacional: Na sua opinião, qual será a principal luta para os trabalhadores nepaleses na próxima fase da vida nacional?
Rajan Bhattarai – A tarefa mais importante para os trabalhadores nepaleses é salvaguardar os direitos democráticos e de bem-estar social conquistados através de décadas de luta. Eles devem se unir com outras organizações progressistas e pró-trabalhadores para restaurar a democracia e a governança constitucional. Além disso, devem continuar a lutar por direitos trabalhistas, salários justos e melhores condições de trabalho.

Friedrich Engels: “Uma colaboração internacional sincera das nações europeias só é possível se cada uma destas nações for, em sua casa, perfeitamente autônoma.” Prefácio da terceira edição polaca do manifesto comunista, 1892.
Por Wevergton Brito Lima
