Súmula Internacional

Súmula Internacional 128: Fome nos EUA – Realidade que Trump busca varrer para debaixo do tapete

Pessoas aguardam em fila para receber comida gratuita no banco de alimentos da World of Life Christian Fellowship International, em Nova York / Foto: Reverendo John Udo-Okon - via AP

O jornal O Globo publicou, nesta quarta-feira (12), uma entrevista feita pelo jornalista Eduardo Graça com Joel Berg, CEO da Hunger Free America (América Livre da Fome), uma ONG que é referência sobre insegurança alimentar e fome nos EUA.

Berger alertou, logo no início da atual paralisação do governo (shutdown), a mais longa da história, que o presidente Donald Trump e os congressistas republicanos usariam na mesa de negociações, como arma de pressão, a suspensão do SNAP, sigla em inglês para “Programa de Assistência Nutricional Suplementar”.

O SNAP é um voucher alimentação para estadunidenses pobres que atende 42 milhões de pessoas. Na ocasião do alerta, acusaram Berger de “alarmista”, pois desde que foi criado, na década de 1970, o programa jamais foi suspenso. Mas desta vez aconteceu e há mais de 40 dias o SNAP não é distribuído. “A oposição não entendeu ainda que este é um governo extremista sem paralelo. Perto do Trump 2.0, (o ex-presidente) George W. Bush era um liberal”, declarou o dirigente.

Como consequência do uso, pelos republicanos, da fome como chantagem política para pressionar pelo fim do “shutdown”,  as imensas filas nas instituições privadas de caridade que distribuem refeições gratuitas revelam o tamanho do problema que Trump tenta de todas as formas esconder. Ele determinou nada menos do que o fim do relatório federal sobre a fome, alegando que os dados são inflados e usados politicamente pela oposição. Berg rebate: “fizeram isso às vésperas da divulgação do relatório de 2024, que registraria mais aumento nos números da fome no país. A estratégia do avestruz, de que se você não faz a contagem, o problema desaparecerá, pelo menos na esfera política, é ridícula”.

Outras informações interessantes da entrevista feita por O Globo com o líder da Hunger Free America:

Embora um acordo no Senado para o fim do shutdown tenha garantido a continuidade do SNAP até setembro de 2026, o orçamento prevê um corte gradual de US$ 186 bilhões no programa ao longo de uma década. Estima-se que 2,4 milhões de pessoas serão diretamente afetadas por essa redução;

Rebatendo as acusações de fraude e o estereótipo de que os beneficiários seriam majoritariamente imigrantes ou eleitores democratas, Berg esclarece com base em dados do próprio governo federal, que a maioria dos que recebem o auxílio se identifica como branca e reside em estados do Sul e Meio-Oeste, de forte inclinação republicana, como Louisiana, Oklahoma, Virgínia Ocidental, Alabama e Texas. O perfil dos beneficiários inclui trabalhadores, militares, veteranos de guerra, pessoas com deficiência, idosos e famílias com crianças;

Dados compilados pela Hunger Free America, referentes ao governo Joe Biden em 2023, já apontavam uma realidade alarmante: 17% das crianças americanas, 10% dos adultos empregados e 8% dos idosos viviam em domicílios com insegurança alimentar. Berg destaca ainda o papel fundamental do Estado no combate à fome, ressaltando que os programas federais garantem um volume de alimentos 17 vezes maior do que todas as doações arrecadadas e distribuídas pela sociedade civil, concluindo que a caridade, sozinha, “não é nem um band-aid” para o problema.

“Os milhares de americanos que vivem às voltas com insegurança alimentar, seus familiares e vizinhos não irão tapar os olhos. Em novembro anunciaremos nossos números sobre a fome nos EUA a partir de bases estaduais e municipais. Não conseguirão apagar a realidade”, diz Joel Berg.

“Senhor, a noite veio e a alma é vil. / Tanta foi a tormenta e a vontade! / Restam-nos hoje, no silêncio hostil, / O mar universal e a saudade.”

 Trecho do Poema “Prece”, de Fernando Pessoa, no Livro “Mensagem”.

Por Wevergton Brito Lima

 

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