Visão Global

A nova diplomacia da China

“Os chineses se propõem como protagonistas da construção de uma “comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, com mais países, mais regiões e organizações participando de um mundo melhor, com novos níveis de desenvolvimento político e econômico e social neste início do século XXI”.

Por Pedro Oliveira*

“Face às mudanças profundas na situação internacional e às necessidades objetivas de todos os países, como passageiros do mesmo barco, devemos impulsionar conjuntamente a construção de um novo tipo de relações internacionais centradas na cooperação e no benefício mútuo. Os povos de todos os países devem trabalhar juntos para proteger a paz mundial e promover o desenvolvimento comum”. Xi Jiping (2013)

A República Popular da China – que em 2019 comemorará 70 anos de sua Revolução Socialista – diante dos novos desafios da situacao mundial busca alternativas dentro de uma teoria de transição hegemônica. Na verdade, a visão chinesa de governança global e o multilateralismo se propõe a contrastar a política adotada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e de sua política de “America First”. A China se opõe à visão hegemônica unipolar dos Estados Unidos e busca alianças  com os paises dos BRICS para compartilhar interesses econômicos estratégicos. Na última reunião de cúpula China—África realizada em Beijing, foram assinados vários acordos de comércio e investimento como pilares dessa nova cooperação.

A teoria de relações internacionais adotada pela China demonstra que o desenvolvimento reduz os conflitos entre estados e podem mitigar as diferenças étnicas domésticas em cada país e também ajudam a diminuir as ameaças terroristas e extremistas contra a sociedade. O conceito de “desenvolvimento” na política mundial não significa apenas crescimento econômico, mais empregos e salários crescentes, mas também justiça social, igualdade, democracia e legalidade na governança, é o que defende o diretor e professor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de Nanjing, Zhu Feng. Ele argumenta que a defesa do “desenvolvimento sustentável”, assumido pela ONU, transformou a proteção ambiental e ecológica como um objetivo primário do desenvolvimento, assim como os campos da racionalização das estruturas demográficas, a transformação do nível educacional universal, os novos meios de conservação de recursos naturais e políticas industriais voltadas para a promoção da inovação científica e tecnológica.

A política chinesa dos últimos 40 anos de focar na doutrina de “concentração em construção e desenvolvimento” permitiu que o país atingisse extraordinários resultados: no ano 2000 a China conseguiu alcançar apenas 10% do PIB americano; em 2017 esse patamar foi elevado para 60% do PIB dos EUA. Antes, lembra o professor Zhu Feng, os céus de Beijing costumavam ser cobertos de poluição como tive a oportunidade de verificar em passagem pela China no mês de maio de 2008, durante a preparação das Olimpíadas. Agora os céus da capital se mostram azuis e o ar limpo.

O governo chinês trabalha para a redução da linha de pobreza, quando mais de 400 milhões de pessoas foram recuperadas dessa situação como constatou a Organização Mundial de Agricultura e Alimentos, a FAO. De 1949 a 1979, destaca o professor Zhu, a China se envolveu em conflitos de fronteira e algumas guerras localizadas. Mas de lá para cá o governo chinês não mais teve interferências deste tipo, passando a utilizar o diálogo e a cooperação pragmáticas para resolver estas questões.

Por exemplo, a China e a ASEAN (Associação de Países para o Desenvolvimento Econômico do Sudeste da Ásia) iniciaram negociações para estabelecer um código de conduta para construir uma ordem baseada em regulamentações e contenções de conflito nas áreas do Mar do Sul da China.

Dentro deste espírito de cooperação e de interesses compartilhados entre os países, em outubro de 2013 o presidente da China, Xi Jinping, propôs a “Iniciativa Um Cinturão, Um Caminho” conhecido como “One Belt, One Road”, que permitirá à China compartilhar sua experiência e sua capacidade de desenvolvimento com outras regiões como a Ásia Central, a Europa e a África. O objetivo é tornar o comércio mais conveniente para os países envolvidos e o ciclo de desenvolvimento econômico, social e cultural que favoreça a construção de uma nova plataforma de alta qualidade para as trocas comerciais e culturais.

Em 2017 o PIB Chinês atingiu a cifra de 12 trilhões de dólares, mas o fato é que uma grande quantidade de matérias primas necessárias para o crescimento de sua economia ainda dependem de importação. Assim, com a iniciativa do “One Belt, One Road” será possível avançar no desenvolvimento chinês integrado com a economia mundial.

Outro aspecto importante dessa nova política do governo da China, de 2008 a 2017 os investimentos e incentivos com juros baixos forma liberados para a assistência a países da África e da América Latina, ultrapassando o volume total dos investimentos dos países desenvolvidos nestes mesmos continentes pela primeira vez na história.

A China anunciou que de 2015 a 2018 iria investir 120 bilhões de dólares em assistência para o desenvolvimento na África, fato que não significa apenas ajuda financeira a juros baixos, mas sim a implementação de projetos de desenvolvimento financiados por bancos comerciais chineses. O comércio entre a China e a África cresceu para 170 bilhões de dólares em 2017, envolvendo trabalhadores africanos – o que promove um desenvolvimento local importante em vários países, constatado pelos relatórios do Banco Mundial.

Com o recuo dos investimentos dos Estados Unidos tanto no FMI e no Banco Mundial, a assistência econômica para o desenvolvimento organizadas pela China suplementa programas desenvolvidos por aquelas instituições internacionais de fomento, aportando investimentos no Paquistão e em vários países africanos, por exemplo.

Alguns líderes mundiais, entretanto, lembra o professor Zhu, além da grande mídia internacional especialmente dos EUA e da Europa, acusam a China de exercer um tipo de “imperialismo” econômico na África. O problema é que estes líderes não relatam que a ajuda chinesa ao desenvolvimento não significa — como no caso do imperialismo exercido pelas grandes potências através de séculos – interferência indevida nas políticas internas destes países e nem também impõe condicionamentos muito conhecidos pelos brasileiros, por exemplo, quando o Brasil esteve sob o tacão de órgãos financeiros internacionais.

A questão principal é que na política da iniciativa “One Belt, One Road” a China aplica o princípio de “desenvolvimento compartilhado através da discussão e da colaboração”, não se tratando absolutamente de uma política estratégica de expansionismo geopolítico. De fato, o mundo tem passado por mudanças inéditas e profundas desde o final da Guerra Fria. Agora, entretanto, o governo Donald Trump acrescentou uma dimensão perigosa: a implementação de uma política econômica protecionista impondo tarifas escorchantes para a importação por um lado, e impondo sanções econômicas sérias com o objetivo de garantir o que denomina de “America First”.

Na verdade o que se constata é que a ordem mundial liberal de comércio está em xeque, conclui o professor Zhu. As economias emergentes sofrem com as dívidas decorrentes das crises financeiras e as perspectivas de crescimento econômico estão estagnadas, Mas apesar desta situação Beijing está confiante e continua implementando sua política de Reformas e Abertura já por 4 décadas, projetando vitalidade no desenvolvimento econômico global e assumindo cada vez maiores responsabilidades no sistema global

Os chineses se propõem como protagonistas da construção de uma “comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, com mais países, mais regiões e organizações participando de um mundo melhor, com novos níveis de desenvolvimento político e econômico e social neste início do século XXI.

 

*Pedro Oliveira é jornalista e assessor da presidência do PCdoB

Referências:
XI JINPING, A Governança da China, Beijing, 2014
ZHU FENG, China set to further boost global growth, China Daily, outubro de 2018

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