Visão Global

Ana Prestes vê coalizão de Trump como ofensiva contra China na América Latina

A coalizão militar anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a cúpula “Escudo das Américas”, realizada no último sábado (7) na Flórida, representa uma tentativa de reafirmar a América Latina como zona de influência estratégica de Washington, em meio à disputa geopolítica com a China.

Por Lucas Toth para o Portal Vermelho

A avaliação é da cientista política e secretária de Relações Internacionais do PCdoB, Ana Prestes, que vê na iniciativa um instrumento de coordenação regional voltado não apenas ao combate ao narcotráfico — como sustenta a Casa Branca —, mas também à contenção do avanço econômico e político de Pequim no continente.

Segundo ela, a estratégia norte-americana tem como pano de fundo a competição global entre as duas potências e busca limitar a presença chinesa em setores estratégicos da região.

Certamente esse que eles estão chamando de Escudo das Américas é uma coordenação que tem também como fio condutor a retirada de qualquer parceria maior que esses países e outros da região possam ter com a China”, afirma.

Ana Prestes observa que a disputa já se manifesta em diversas frentes, como infraestrutura, energia e comércio. Um dos exemplos citados por ela é a pressão exercida pelos Estados Unidos para reduzir a presença chinesa em projetos logísticos na região.

Desde o começo do mandato, Trump fez o Panamá sair da rota da Cinturão e Rota e agora também há pressão sobre o porto construído pela China no Peru para quebrar essa interconexão com as cadeias globais de comércio”, diz.

A chamada Iniciativa Cinturão e Rota — projeto global de infraestrutura liderado por Pequim — tem ampliado a integração logística e comercial entre países do Sul Global por meio de investimentos em portos, ferrovias e corredores de transporte. Na América Latina, a iniciativa passou a incluir obras estratégicas voltadas à ligação do Pacífico com cadeias globais de comércio.

Um dos casos mais citados é o porto de Chancay, no Peru, construído com participação de capital chinês e projetado para se tornar um grande hub comercial entre a América do Sul e a Ásia. O empreendimento é visto por Washington como um ponto de expansão da presença econômica chinesa no continente.

Segundo a analista, iniciativas como a nova coalizão regional indicam que Washington busca reorganizar sua presença no hemisfério e reduzir a margem de manobra de governos latino-americanos na diversificação de parceiros comerciais.

Essa coalizão só aumenta esse risco porque dá sustentação e apoio para eventuais medidas dos Estados Unidos, como invasões, bombardeios e outras ações de violação da soberania e da autodeterminação dos povos na América Latina”, afirma.

América Latina e política interna dos EUA

A especialista também avalia que a política para a América Latina tem sido utilizada por Trump como instrumento de mobilização eleitoral nos Estados Unidos, especialmente em estados onde o voto latino tem peso significativo.

Segundo ela, a escolha da Flórida como sede da cúpula não foi casual, já que o estado concentra uma base eleitoral conservadora sensível ao discurso anti-Cuba e anti-Venezuela.

Primeiro, o voto latino nos Estados Unidos gira em torno de 10 a 15%. Na eleição de 2024 foi cerca de 10%, e o evento foi realizado na Flórida, onde existe um eleitorado latino bastante alinhado ao trumpismo”, afirma.

Ela observa que parte desse eleitorado é formado por segmentos da diáspora latino-americana que apoiam políticas duras contra governos progressistas da região. Segundo ela, “tem um nicho de latinos já cidadãos estadunidenses que apoiam as medidas contra a Venezuela e contra Cuba”.

Nesse contexto, a presença e o protagonismo do secretário de Estado Marco Rubio — político de origem cubana e figura central da linha dura de Washington contra Havana e Caracas — também ajudam a explicar o tom do encontro.

Durante a cúpula, Rubio foi repetidamente elogiado e bajulado por Trump, que o apresentou como peça central da estratégia norte-americana para o hemisfério ocidental.

Disputa por mercados e influência econômica

A avaliação é de que a política externa do governo Trump busca garantir espaço para empresas norte-americanas em setores estratégicos da economia regional.

Segundo Prestes, documentos recentes de estratégia de segurança nacional e segurança hemisférica indicam uma tentativa de consolidar as Américas como área prioritária de influência dos Estados Unidos.

Essas estratégias desenham as Américas como um território quase exclusivo dos Estados Unidos, e com governos mais próximos Washington busca garantir esse predomínio também para os empresários norte-americanos nesses mercados”, afirma.

Na avaliação da especialista, essa política se manifesta em disputas por contratos de infraestrutura, exploração de recursos naturais e projetos energéticos.

Ela cita como exemplo o setor petrolífero venezuelano, que historicamente manteve relações comerciais relevantes com a China.

Com relação ao petróleo da Venezuela, havia um comércio forte com a China. Então, quando há qualquer tipo de concorrência, os Estados Unidos tentam se colocar interpondo a possibilidade da China de concorrer”, diz.

Riscos para a soberania da região

A criação de uma coalizão militar liderada pelos Estados Unidos pode ampliar os riscos de intervenções ou pressões externas sobre países da região.

Segundo Ana Prestes, a estrutura anunciada na cúpula pode funcionar como mecanismo de legitimação para ações unilaterais ou operações militares sob o argumento de combate ao narcotráfico.

Essa coalizão só aumenta esse risco porque dá sustentação e apoio para eventuais medidas dos Estados Unidos, como invasões, bombardeios e outras ações de violação da soberania e da autodeterminação dos povos na América Latina”, afirma.

A presença militar norte-americana no continente já vem se intensificando nos últimos anos, tanto por meio de acordos bilaterais quanto por operações conjuntas. As ações militares no nosso continente já são uma realidade, com presença crescente dos Estados Unidos no Caribe, na América Andina e com acordos militares cada vez mais estreitos com governos da região.

A nova coalizão anunciada por Trump tende a aprofundar essa tendência e a reforçar o papel dos Estados Unidos como principal potência de segurança no hemisfério ocidental.

 

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