Em Havana, EIPCO reafirma unidade anti-imperialista e legado de Fidel
Ao longo de dois dias de debates a capital cubana tornou-se o principal ponto de convergência da esquerda comunista mundial. Aberto na sexta-feira (7) no Palácio das Convenções e encerrado no sábado (8), o 24º Encontro de Partidos Comunistas e Operários (EIPCO) reuniu mais de cem representantes de 48 partidos políticos de todos os continentes, com a presença, tanto na abertura quanto no encerramento, do Primeiro-Secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba (PCC) e Presidente da República, Miguel Díaz-Canel Bermúdez. Todos os partidos comunistas no poder participaram. Além do Partido Comunista de Cuba, anfitrião, enviaram delegações a China, o Vietnã, a Coreia Popular e Laos.

Foto: Juvenal Balán
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foi representado por uma delegação liderada por Ana Maria Prestes, Secretária de Relações Internacionais do partido, e composta ainda por Ricardo Abreu Alemão e Socorro Gomes, ambos membros do Comitê Central. Ricardo Abreu é Diretor de Estudos e Cooperação Internacional da Fundação Maurício Grabois, e Socorro Gomes integra a Executiva Nacional do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz). A mesma delegação permanece na capital cubana representando o PCdoB no Colóquio sobre os 100 anos de nascimento de Fidel Castro, iniciado neste domingo (9) e com encerramento previsto para o dia 13 de agosto.
Leia, neste link, a íntegra do discurso de Ana Prestes no EIPCO: PCdoB: unidade dos povos contra o imperialismo e o fascismo
O encontro foi convocado sob o lema “Defendemos e homenageamos o legado da Revolução Cubana no centenário de Fidel, aprofundamos nossa solidariedade com a Cuba socialista, reforçamos nossas ações comuns e unimos nossas forças pela paz e contra a agressividade imperialista”. Fundado em 1998 em Atenas, na Grécia, o EIPCO é considerado a mais abrangente e antiga plataforma de seu tipo, integrada atualmente por 118 partidos, e se aproxima de seu 30º aniversário.
Um encontro sob o signo do centenário de Fidel

Foto: Juvenal Balán
A realização da 24ª edição em Havana coincidiu com as comemorações pelo centenário do nascimento do Comandante em Chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz, figura central na história do movimento comunista internacional. Mais do que uma homenagem, a escolha da capital cubana como sede foi um gesto político de solidariedade ao povo cubano diante do recrudescimento do bloqueio norte-americano, além de um passo para articular estratégias comuns frente à ofensiva imperialista.
Na abertura, o membro do Bureau Político e Secretário de Organização do Comitê Central do PCC, Roberto Morales Ojeda, destacou o valor extraordinário da reunião e agradeceu às delegações que enfrentaram obstáculos, ameaças e pressões para chegar à ilha.
“A participação de mais de 100 representantes de 48 partidos neste 24º Encontro nos confirma que Cuba não está só e que conta com o acompanhamento e a solidariedade permanente dos partidos comunistas e operários que conformam esta importante plataforma”.

Morales Ojeda / Foto: Vladimir Molina
Morales Ojeda apresentou um quadro severo dos efeitos do bloqueio econômico, comercial e financeiro, que, segundo ele, limita o acesso a combustíveis, medicamentos, alimentos, peças de reposição, investimentos e créditos. O dirigente cubano citou dados sobre o impacto humano dessas restrições, entre eles a duplicação da taxa de mortalidade infantil — de 4,0 em 2017 para 9,9 atualmente — e a queda do índice de sobrevivência de crianças com câncer, de 85% para 65%. Também denunciou a aplicação das chamadas “sanções secundárias”, de caráter extraterritorial, que provocaram a retirada do país de empresas, instituições financeiras, companhias aéreas, armadoras e operadores turísticos, bem como a imputação falaciosa e politicamente motivada, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra o General de Exército Raúl Castro Ruz .
Diante desse cenário, o secretário de Organização do PCC afirmou que Cuba não permaneceu inerte. Após um amplo processo de consultas com especialistas, atores econômicos e acadêmicos, e avaliadas experiências de países amigos, foram aprovadas 176 transformações econômicas e sociais, agrupadas em 23 eixos temáticos, debatidas no Bureau Político, no Plenário Extraordinário do Comitê Central, na Assembleia Nacional do Poder Popular e no Conselho de Ministros. O objetivo declarado é “desatar as forças produtivas para gerar riqueza e distribuí-la com justiça social, melhorar as condições de vida do povo, potencializar o desenvolvimento socioeconômico do país e preservar as conquistas sociais da Revolução Cubana”.
O tema foi aprofundado em conferência específica apresentada pelo membro do Secretariado do Comitê Central e chefe de seu Departamento Econômico-Produtivo, Jorge Luis Broche Lorenzo, que respondeu a questionamentos sobre a natureza das medidas. A tese central defendida foi a de que as 176 transformações representam continuidade nos princípios, objetivos e direções estratégicas da Revolução, alterando instrumentos, atribuições, mecanismos de gestão e ritmo de implementação — e não uma concessão a pressões externas ou uma mudança de sistema em direção ao capitalismo .
Chancelaria cubana denuncia “neomacartismo” e reitera disposição ao diálogo
O ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez Parrilla, caracterizou o atual cenário internacional como marcado pelo enfraquecimento do direito internacional, pelo desrespeito à soberania dos Estados e pelo avanço de práticas que buscam impor a hegemonia por meio da força, da agressão militar e da ingerência em assuntos internos. O chanceler denunciou o ressurgimento de posturas que classificou de neomacartistas nos Estados Unidos e rejeitou um recente relatório do Departamento de Estado, qualificado como “superficial, mentiroso e inconsistente”, cujo propósito, segundo ele, é “criminalizar as genuínas expressões de solidariedade com Cuba”.
Rodríguez Parrilla reiterou que Cuba mantém disposição ao diálogo bilateral “sobre bases de respeito”, ressalvando que não negociará sua ordem constitucional, a soberania nacional nem os princípios da Revolução. “Nunca falaremos com o governo dos Estados Unidos sobre os assuntos internos da República de Cuba nem sobre os princípios da Revolução Cubana”, afirmou. O ministro também sublinhou a necessidade de desenvolver capacidades próprias no âmbito digital para enfrentar a desinformação e defender, desde o Sul Global, a soberania comunicacional .
Debate ideológico: capitalismo em crise e reedição do fascismo
No encerramento, Díaz-Canel agradeceu às delegações a coragem e a determinação para chegar a Cuba “em meio a tantas pressões, chantagens e mentiras” e alertou que o mundo atravessa “um de seus momentos mais incertos e perigosos”, com uma “tempestade perfeita” desencadeada por um capitalismo devorado por suas próprias contradições: concentração excessiva da riqueza, iniquidades, destruição ambiental e guerras por mercados, recursos e zonas de influência.
“A análise marxista-leninista mantém plena vigência ao expressar que estas crises não são acidentes, mas o resultado das leis de desenvolvimento do capitalismo monopolista e imperialista”.
O presidente cubano deu ênfase especial ao que chamou de reedição do fascismo, denunciando a restauração de regimes fascistas caracterizados pelo nacionalismo, pela supremacia racial, pela xenofobia, pelos deslocamentos populacionais e pela proscrição de ideologias. “Não lhes basta o genocídio em Gaza e sua degradante transmissão pública, senão que se tenta reproduzi-lo em Cuba por meio de uma política agressiva e criminal”, sentenciou.
Pronunciamento comum, Palestina, China e Vietnã
Em nome das forças políticas presentes, o presidente do Partido Comunista da Espanha, José Luis Centella, leu o pronunciamento comum do encontro, reconhecendo a complexidade do contexto internacional e a ameaça representada pela política agressiva e ingerencista dos Estados Unidos e de outras potências imperialistas. “Defendendo e honrando o legado da Revolução Cubana no centenário do nascimento de Fidel, e consolidando a solidariedade com a Cuba socialista, fortalecemos as ações conjuntas e unimos forças pela paz e contra a agressão imperialista”, declarou. O documento reafirmou a vigência do pensamento de Fidel Castro, cujas ideias “profundamente humanistas, internacionalistas e solidárias são imprescindíveis para enfrentar os progressivos desafios do atual cenário internacional”.
O encontro foi também palco de denúncias contra a agressão sionista na Palestina. Representando o Partido Comunista da Palestina, Ihab Masfi manifestou solidariedade ao povo cubano, exigiu a retirada de Cuba da lista unilateral de terrorismo e o levantamento imediato do bloqueio, e afirmou que a ofensiva imperialista assumiu na região seu rosto mais fascista por meio da aliança entre o sionismo fascista e o extremismo religioso, classificando a guerra contra a Faixa de Gaza como “um dos crimes mais horrendos de genocídio, limpeza étnica e fome sistêmica da era moderna”.
O Partido Comunista da China enviou uma delegação liderada por Liu Haixing, chefe do Departamento Internacional do Comitê Central do PCCh. O dirigente comunista chinês declarou que “China e Cuba são bons amigos, bons camaradas e bons irmãos. Nos mais de 60 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas, independentemente das mudanças no cenário internacional, as duas partes sempre se apoiaram mutuamente, aprofundando de forma inabalável uma amizade de plena confiança, desenvolvendo uma cooperação de benefício mútuo e sendo parceiras na reforma e no desenvolvimento, tornando-se um exemplo de solidariedade e cooperação entre países socialistas e de sincera ajuda mútua entre países do Sul Global”.
No mesmo pronunciamento, Liu Haixing afirmou que a China “apoia Cuba a seguir o caminho socialista” e que atuará ao lado de Cuba “para defender a equidade e a justiça internacionais e opor-se ao hegemonismo e à política de força”.
Pelo Partido Comunista do Vietnã, Vu Thai Tha reafirmou solidariedade invariável diante das dificuldades enfrentadas por Cuba em razão do bloqueio e do cerco energético: apoiar Cuba, disse, “é uma questão de consciência e responsabilidade, e também uma continuação natural do legado de Ho Chi Minh e do internacionalismo proletário”.
O 24º EIPCO foi concluído com o propósito firme de fortalecer a unidade das forças progressistas do mundo, consolidar a solidariedade com Cuba e redobrar os esforços na luta comum contra o imperialismo, o colonialismo e o fascismo . Para a delegação do PCdoB, a agenda em Havana segue com o Colóquio dedicado ao centenário de Fidel Castro, que se estende até 13 de agosto e prolonga, no plano da reflexão histórica e teórica, os debates abertos pelo encontro dos partidos comunistas e operários.
Por Wevergton Brito Lima, editor do i21
