Nádia Campeão: “O fascismo nunca deve ser subestimado”
A presidenta interina do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Nádia Campeão, liderou a delegação do Partido – composta ainda por Ana Prestes, Secretária de Relações Internacionais – no 3º Fórum Internacional Antifascista, promovido pelo Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) em Moscou, entre os dias 23 e 27 de maio. O partido anfitrião também denominou o Fórum de “Antiterrorista”, referindo-se ao terrorismo de Estado patrocinado pelo imperialismo e seus satélites, como Israel e Ucrânia.
Em sua intervenção no evento, Nádia Campeão delineou as principais características dos tempos atuais, falou sobre a ofensiva imperialista contra a América Latina e o Brasil, defendeu a unidade antifascista e a perspectiva do socialismo (“única alternativa viável à barbárie capitalista”). Leia, abaixo, a íntegra do discurso.
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Estimados camaradas do Partido Comunista da Federação Russa,
Representantes das delegações internacionais de diversos países e partidos,
Camaradas,
Trago uma calorosa e fraterna saudação do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, a todos e todas presentes neste Fórum Internacional Antiterrorismo de Moscou, organizado de forma magistral pelo Partido Comunista da Federação Russa, a quem agradecemos pela honra do convite, pela oportunidade de participar e trazer notícias do Brasil e da América Latina.
Vivemos um momento histórico em que o mundo atravessa uma profunda transição geopolítica, marcada pela crise de decadência hegemônica dos Estados Unidos, pela intensificação das disputas estratégicas globais entre os múltiplos e emergentes pólos dinâmicos de poder e pela ascensão de forças ultraconservadoras e neofascistas.
O nosso Partido avalia que a extrema direita internacional atua hoje de forma articulada, combinando poder econômico, manipulação digital, terrorismo, desinformação em massa e estímulo permanente ao ódio político e social.
O sistema capitalista imperial, comandado por uma oligarquia financeira, evidencia seu esgotamento ao oferecer à humanidade apenas a estagnação econômica, a precarização do trabalho, a devastação ambiental e a barbárie. As imensas possibilidades criadas pela revolução tecnológica e a chamada “inteligência artificial” chocam-se brutalmente com as relações de produção capitalista que servem à financeirização e ao capital fictício e impedem a emancipação da classe trabalhadora.
Diante desse esgotamento, o imperialismo estadunidense, ciente de seu declínio progressivo, de sua desindustrialização e de seus déficits crônicos, reage com enorme violência. A ascensão da China socialista, o dinamismo do continente asiático, a aliança estratégica entre Rússia e China e a expansão do BRICS Plus consolidam, de forma irreversível, a transição para um mundo multipolar. O Sul Global ergue-se para reivindicar seu desenvolvimento autônomo.
Para tentar reverter a marcha da história, o governo dos Estados Unidos recorre à força bruta, à chantagem tarifária, às sanções ilegais, à militarização e à beligerância. Testemunhamos horrorizados o genocídio do povo palestino em Gaza promovido pelo Estado terrorista de Israel com o total apoio de Washington. Os mesmos métodos são adotados agora no Líbano. Condenamos o bombardeio imperialista ao Irã e o assassinato de seu líder supremo e lideranças soberanas.
Na Europa, a expansão da OTAN para o Leste e a guerra por procuração na Ucrânia demonstram a recusa do Ocidente em aceitar uma arquitetura de segurança compartilhada. Preferem apoiar o regime neofascista de Zelensky a buscar uma solução negociada tantas vezes proposta pela Rússia e que poderia colocar um fim no conflito. O governo brasileiro, sob a liderança do presidente Lula, tem sido um contraponto à tentativa de isolamento da Rússia e na defesa de uma urgente resolução diplomática.
Em nossa região, desde a posse do presidente Donald Trump para seu segundo mandato, temos sido alvo da elevação da cobiça e do intervencionismo estadunidense. Denunciamos o criminoso sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores, um ato de terrorismo internacional contra a Venezuela bolivariana. Rechaçamos a escalada genocida do bloqueio econômico e naval contra Cuba, agora combinado com ameaças de invasão.
Igualmente abomináveis têm sido os bombardeios a pequenas embarcações nos mares do Pacífico e do Caribe com a alegação de combate ao narcoterrorismo, assim como a ostensiva militarização de países como o Paraguai, o Equador e a Bolívia, para desestabilizar a região.
Na América Latina e no Caribe, prevalece a ofensiva do governo Trump prevista na nova Estratégia de Segurança Nacional, que renovou a famigerada Doutrina Monroe, e o faz com o apoio de governos de direita e extrema direita, reunidos no denominado “Escudo das Américas”, para a coordenação de ataques aos governos progressistas e de esquerda como os do México, da Colômbia e do Brasil e o impedimento da integração latino-americana.
No Brasil, desde a eleição do presidente Lula em 2022, o governo luta para afastar as ameaças à nossa democracia e conduzir políticas para garantir justiça social ao nosso povo. Um governo sem maioria parlamentar no Congresso Nacional, que torna cada projeto e reforma um desafio para sua aprovação. E que mesmo assim conquistou vitórias econômicas de vulto. O PCdoB faz parte da Federação partidária com o Partido dos Trabalhadores e Partido Verde e atua no governo principalmente através de sua Ministra titular da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação. Ao mesmo tempo está nas ruas, em permanente mobilização da classe trabalhadora para defender o governo Lula, derrotar os traidores da pátria e assegurar um novo ciclo de desenvolvimento para o Brasil.
Mas a luta pela soberania nacional permanece central. O Brasil é alvo estratégico da ofensiva imperialista de Trump, que tenta ter o domínio das fontes energéticas e das riquezas naturais, como minerais das terras raras, e visa enfraquecer o potencial brasileiro de articulação do BRICS Plus e outras iniciativas do Sul Global. Para isso, conta com a alta traição da extrema-direita brasileira, liderada pelo clã Bolsonaro, que atua declaradamente a serviço de Washington. É preciso registrar que o ex-presidente Jair Bolsonaro e os militares que tentaram dar um golpe de Estado em 2023 foram condenados e estão presos.
O governo do presidente Lula tem reagido com altivez às ameaças dos EUA e se mantem ao lado dos povos que lutam pela paz e contra a guerra imperialista.
As eleições presidenciais do Brasil do próximo mês de outubro terão dimensões tático-estratégicas decisivas. De um lado, a frente ampla liderada por Lula, com a defesa da democracia, da reindustrialização e da integração regional; do outro, o neofascismo antinacional de Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, que promete anistiar golpistas e entregar o país para Trump e empresários dos EUA. Eles contarão com o apoio da oligarquia financeira que abastece e promove o extremismo e se utiliza das “big techs” como armas de guerra híbrida e ideológica para disseminar o ódio, o racismo, a xenofobia e o obscurantismo anticientífico. Derrotá-los é a nossa principal missão em 2026.
Camaradas, a história nos ensina que a transição de hegemonia nunca é pacífica, mas também nos mostra que a vitória pertence aos povos que ousam lutar. O socialismo ressurge no século XXI como a única alternativa viável à barbárie capitalista. O desenvolvimento vertiginoso da China socialista, a resistência de Cuba, Vietnã, Laos e Coreia Popular provam que é possível aliar o avanço das forças produtivas à justiça social e à soberania.
A memória histórica do século XX nos ensina que o fascismo nunca deve ser subestimado. Quando as forças progressistas se fragmentam, quando o medo paralisa os povos, o autoritarismo avança. Precisamos fortalecer os instrumentos de cooperação internacional antifascista, produzir análises comuns e construir campanhas globais de solidariedade.
Como concluiu recentemente o Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo reunido no Brasil: a nossa força reside na nossa unidade.
Viva a solidariedade internacionalista dos povos!
Viva a luta pela paz e contra o imperialismo!
Venceremos! Muito obrigada.
Moscou, 25 de maio de 2026
